É preciso amar a Obstetrícia!


Quando eu disse pra minha mãe, também médica, que gostaria de ser Ginecologista e Obstetra, ela me disse “filha, que vida você vai ter?”. Pois é, que vida eu tenho hoje? A melhor de todas. Mesmo passando muito tempo fora de casa, muitas madrugadas na rua, perdendo festas de família, saindo no meio de sessões de cinema, deixando de fazer as refeições corretamente, eu gosto muito de ser Obstetra.

Durante minha formação, eu preferia a Ginecologia, mesmo fazendo residência na maior maternidade da região sul. Foi ali que eu conheci um “pai e uma mãe” apaixonados pela arte do nascimento, parteiros, e, depois de algum tempo, eles fizeram com que eu me apaixonasse por esta arte. Acredito que não escolhi ser Obstetra, a Obstetrícia me escolheu. Hoje em dia eu faço parto, muito mais que cesariana. As pacientes me procuram por isso e fico imensamente feliz por esta referência. Adoro dizer esta frase “coisa boa não precisar te convencer do que é melhor”.

Até hoje, muitas pessoas perguntam “por que você ainda faz parto, fica horas esperando o bebê nascer. A cesariana é bem mais fácil, mais rápida, com hora marcada”. Sim, tudo isso é verdade, mas eu me sinto muito bem depois de um parto, de ver a mulher vencendo este desafio, muitas vezes provando para toda família e para si mesma, que ela é capaz de parir. Isto me deixa realizada. Calma, eu também gosto de cesariana.

Acho a cesariana importantíssima, ela salva vidas, tem indicações precisas, facilita meus dias, foi uma evolução incrível da Medicina, porém eu acho importante que as pacientes se permitam entrar em trabalho de parto, mesmo que elas desistam na primeira contração. Lógico, não podemos escolher parto a qualquer custo. Como eu disse, existem situações nas quais esta opção não é viável. Não podemos sucumbir ao radicalismo e esquecer que estamos lidando com os desejos maternos, mas também com a vida dela e a do bebê que está por vir.

Há bem pouco tempo eu vivi uma situação que me deixou muito feliz. Paciente com gestação normal, segundo filho, primeiro tinha nascido de cesariana marcada, sem nenhuma contração e este era o desejo dela novamente. O único problema é que, devido a uma orientação legal, não é mais possível agendar cesariana eletiva antes das 39 semanas. Pois então, a cesariana estava marcada para o sábado, mas na quarta a paciente chegou ao Hospital com 7cm de dilatação, em franco trabalho de parto. E aí, fazer o quê? Simples, assumi minha função de parteira, orientei sobre todo o caminho que ela já havia percorrido, conversei sobre analgesia de parto e aguardamos. Em 2h a criança nasceu e, junto com ela, nasceu uma mãe, que descobriu ser muito mais forte e corajosa. Palavras dela “eu consegui” (Amo essa frase… eu também disse isso quando Alice nasceu, a maioria delas diz).

Não estou dizendo que o parto normal é fácil, muito pelo contrário. É um processo lento, dolorido, exige muito preparo emocional, paciência, mas é viável, muito viável e, na maioria das vezes, faz muito bem a gestante. A sensação de poder é incrível. Eu não obrigo ninguém a ter um parto, até acho que indico muita cesariana, mas sempre que possível, tento convencer as pacientes de tentarem. Algumas se surpreendem com o desfecho.

Infelizmente, algumas pacientes e suas família associam o parto normal a uma situação de “sofrimento”. Não gosto desta palavra. Parir por via baixa não é simples, mas não é um sofrimento. Jamais vou tentar convencer vocês de quem não dói. Claro que dói, exige uma preparação e várias mudanças no corpo para permitir a saída do bebê, mas não é um sofrimento, é uma transformação. Costumo fazer uma analogia com outros tipos de dor. Você nunca vai esquecer um episódio de cólica renal ou dor de dente, mas você vai esquecer do trabalho de parto. Na imensa maioria das vezes não traumatiza.

Eu tive um parto, normal, com trabalho de parto, doula, contrações regulares, analgesia, super humanizado. Vou contar minha experiência num post nas próximas semanas. Por ter passado por isso, acho que fiquei mais preparada para estimular as pacientes a tentarem. Adoro a cara delas de surpresa quando descobrem que Alice nasceu de parto normal. Mesmo assim eu respeito às pacientes que não querem parto, que preferem agendar uma cesariana. Faz parte do meu trabalho orientar sobre as vias de parto, seus prós e contras, mas também faz parte respeitar o desejo das pacientes.

Voltando ao título o texto, eu amo a obstetrícia, é preciso amá-la para viver esta escolha na sua plenitude. É preciso curtir o trabalho de parto, vivê-lo com a paciente e seus familiares e, principalmente, ter paciência para aguardar seu desfecho e ter sensibilidade para entender e perceber que a paciente não aguenta mais. Algumas vezes, eu preciso dizer pra paciente que ela pode desistir, não será menos mãe por isso. Por outro lado, também sou eu a responsável por perceber que não existe parto a qualquer custo. Quando alguma coisa sai do padrão, preciso tomar as rédeas da situação e indicar cesariana.

Sempre converso sobre isso no pré natal. Acho ótimo escolher parto normal, fazer um plano de parto, ter uma doula, dar tempo pro bebê nascer, mas não posso deixar que essa escolha coloque a vida da mãe ou do bebê em risco. A opção pela cesariana sempre precisa ser discutida. Até porque, eventualmente, está tudo bem, gestação saudável, exames em dia, mas uma ecografia com 36 semanas mostra um bebê sentado e o plano do parto vai por água abaixo.

Sim, alguns médicos fazem parto pélvico, ou tentam versão externa (mudar a posição do bebê dentro da barriga). Não faço nada disso. Desde a primeira consulta de pré natal eu deixo bem claro que apresentação pélvica é igual a cesariana, eletiva, com hora marcada, sem aguardar trabalho de parto. Nascer sentando nunca é fácil, mesmo que seja cesariana. Tentar parto, na minha opinião, está completamente fora de cogitação. Os riscos não compensam de forma nenhuma.

Então, eu amo a obstetrícia, amo viver um trabalho de parto com aquela nova família que está se formando. Por isso eu escolhi fazer isso e continuo fazendo isso mesmo agora, com uma filha pequena, que tornou meu tempo mais apertadinho. Porém, eu faço cesariana. Com muito mais critério do que alguns colegas obstetras, mas eu faço.

Muito importante!!! Aqueles obstetras que só fazem cesariana também amam a obstetrícia. Assim como as pacientes têm o direito de escolher sua via de parto, nós obstetras temos o direito de optar por uma vida relativamente mais tranquila. Só precisamos deixar nossa escolha clara para a gestante desde o início do pré natal.

Bem vindas!

Meu nome é Maria Fernanda, sou obstetra, mãe da Alice e aprendiz da maternidade. Sejam todos bem vindos ao meu blog!

 

Em 2015 eu vivi uma experiência incrível com a minha gestação. Estando do outro lado da cortina, pude entender melhor algumas dúvidas comuns entre as pacientes. Com isso, surgiu a ideia de fazer um blog. Através dele vou tentar fornecer informações que possibilitem uma gestação mais tranquila. Abordarei semanalmente assuntos baseados nas dúvidas do meu dia a dia no consultório e na minha vivência como gestante, puérpera e mãe. Recentemente eu decidi fazer postagens também com relatos de parto, para dividir as experiências vividas pelas mamães, contadas por elas.

Não esqueçam de deixar um comentário sobre o que acharam do blog, dúvidas ou sugestões para os próximos posts. Se acharem que as informações são úteis, compartilhem e sigam nossas páginas no instagram (@blogacaminho) e facebook (fb.com/blogacaminho).

 

Obrigada pela visita!

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