Estou com contrações, e agora?


Desde as 17h quando chegamos em casa de uma caminhada de 2h eu sentia alguma coisa estranha, umas cólicas diferentes, a barriga ficava dura, mas nada rítmico, nada insuportável. Na verdade não era nem uma dor, só um desconforto. A noite seria de super lua, 29 de agosto de 2015, um fenômeno raro, um bom dia para nascer.

A 1h da manhã de domingo acordei com dor, agora de verdade. Certamente eram contrações, ainda não regulares, mas contrações. Tentei controlar em casa, caminhando, fazendo agachamento, mas a ansiedade tomou conta e fui pro hospital fazer uma avaliação. Chegando lá, Alice estava ótima e minha dilatação era de 4cm. Resolvi voltar pra casa. Fiquei no chuveiro por um tempo (santa decisão) e, quando as contrações ficaram de 5 em 5 minutos eu voltei pro hospital. UFA, estava com 7cm, ela ia nascer.

Por que eu resolvi escrever sobre isso? Todos os dias as pacientes me perguntam “Como eu vou saber que está na hora?” Não existe uma hora mágica, ou a dor certa para ir até o hospital. Cada paciente sabe até quando aguenta ficar em casa com dor ou melhor, até quando se sente segura ficando em casa. Essa segurança precisa ser “construída” no pré natal.

Geralmente, em pacientes com bolsa íntegra e que desejam parto normal, oriento que aguardem as contrações ficarem regulares, pelo menos uma a cada 5 minutos, por pelo menos uma hora. Sempre temos aquelas que aguentam mais e chegam quase ganhando e aquelas que toleram menos e chegam com 2 cm. Nem um, nem outro, precisamos organizar um meio termo, mas como isso é difícil.

Idealmente, a paciente deveria internar com contrações regulares, 3 em 10 minutos, e um colo com dilatação de, pelo menos, 4-5 cm. Concordo com isso, até porque estar em trabalho de parto na sala de casa ou no seu próprio chuveiro é mais fácil do que estar fechada num quarto de hospital. Trabalhos de parto hospitalares, longos, geram muita ansiedade e, às vezes, favorecem a desistência. Internar com uma dilatação maior abrevia o processo e diminui um pouco essa ansiedade e aumentam as chances de sucesso.

Quando eu falo que ficar em casa e no seu chuveiro é mais fácil, não quer dizer que concordo com parto domiciliar. Muito pelo contrário. Eu acho que parto seguro é parto hospitalar, com toda a estrutura necessária para um nascimento humanizado ou, em caso de urgência, equipamentos para que as condutas necessárias sejam tomadas… respirador, bloco cirúrgico, Pediatra, Anestesista, UTI neonatal, enfim, para que um plano B seja colocado em ação de forma ágil. Acho que ficar em casa até desencadear um trabalho de parto mais avançado está OK, mas parir em casa, de jeito nenhum. Falarei sobre isso em outro post.

Durante as consultas de pré natal conseguimos ter uma idéia das modificações que estão acontecendo no colo uterino, mas nunca a certeza de “quando vai nascer”. Assim como eu fiz, mãe de primeira viagem, aconselho as pacientes a procurarem a emergência quando acharem que estão com contrações regulares. Às vezes um simples exames de toque dá a dimensão da dor e das contrações e facilita o processo. Prefiro que as pacientes cheguem ao hospital, sejam avaliadas e liberadas a chegarem com dilatação completa, quase nascendo. Isso faz o parto virar uma verdadeira correria. Não é muito comum acontecer, especialmente em primigestas (mães de primeira viagem), mas acontece.

O medo da dor do parto afeta muito o psicológico da paciente. Muita atenção, a dor não é psicológica, o medo sim. A dor até pode ser controlável, suportável, mas é real. A percepção da dor, essa sim, depende de cada pessoa e, principalmente, no caso do nascimento, de como ela se preparou para este momento. Eu sempre converso sobre a dor do parto. Não adianta fantasiar um momento mágico para o bebê nascer e achar que será facílimo. Não é! Eu passei por um trabalho de parto relativamente curto, mas intenso. É absolutamente suportável, mas você precisa estar preparada para ele.

Por outro lado, canso de ver pacientes com cesariana eletiva marcada que chegam no hospital para uma “avaliação” e estão com 6, 7, 8 cm de dilatação, ou completas. Essa é a mágica do parto. Você não sabe até quanto pode suportar a dor das contrações até senti-la de fato. Por isso, quando possível, dê-se a chance de entrar em trabalho de parto. Algumas vezes é mais fácil do que você imagina. Ou então, nunca esqueçam, sempre existem as possibilidades de controle da dor e também a cesariana.

É interessante ver as pacientes com cesariana prévia, eletiva, em geral antes das 39 semanas, ou então aquelas totalmente avessas ao parto normal, entrando em trabalho de parto espontâneo, “por acidente”, ou melhor, porque foi antes da data marcada para cesariana. A experiência delas é bem gratificante e, na imensa maioria das vezes, acabo ouvindo “se eu soubesse que seria assim não teria feito cesariana na primeira vez”. Nós mulheres não temos noção do quão corajosas nós somos. Quando possível, permita-se tentar.

Existem inúmeras medidas farmacológicas ou não para controle da dor. Também teremos um post sobre isso. Eu, por exemplo, usei de várias delas em casa, antes de ir para o Hospital. O banho de chuveiro, com água morna nas costas, é um santo remédio. Se você sentar numa daquelas bolas grandes, de pilates então, é quase o paraíso. Outra coisa que ajuda muito é caminhar. Ao contrário do que a maioria pensa, por instinto, ficar deitada, com contrações é insuportável. Quem já passou por um trabalho de parto sabe que é impossível ficar parado quando a dor chega. Existe uma necessidade fisiológica de movimento e isso alivia muito a dor. Além de ajudar a distrair um pouco.

Algumas pacientes são avessas a analgesia farmacológica. Como eu disse várias vezes, precisamos ter muito cuidado com os radicalismos. Cada paciente sabe até onde consegue suportar e não tem nada de errado em pedir analgesia. Vocês não serão menos poderosas por precisarem de ajuda para controle da dor. A medicina evoluiu para ajudar as pacientes. Quando possível podemos lançar mão destes benefícios. As mulheres têm noção, imaginam como é um trabalho de parto, mas ninguém sabe o tamanho dessa dor até passar por ela.

Lógico, esse post é sobre um modelo ideal, numa gestação de risco habitual (baixo), sem outros sintomas associados (bolsa rota, sangramento, com boa movimentação fetal…). Existem inúmeras situações nas quais a conduta precisa ser diferente. O pré natal serve para esclarecer dúvidas, discutir possibilidades, criar situações imaginárias e montar planos diversos de ação. No setor privado ou no SUS, o pré natalista precisa discutir o momento do parto com a paciente, para que ela fique segura, ou o mais próximo disso, quando as contrações começarem.

Bem vindas!

Meu nome é Maria Fernanda, sou obstetra, mãe da Alice e aprendiz da maternidade. Sejam todos bem vindos ao meu blog!

 

Em 2015 eu vivi uma experiência incrível com a minha gestação. Estando do outro lado da cortina, pude entender melhor algumas dúvidas comuns entre as pacientes. Com isso, surgiu a ideia de fazer um blog. Através dele vou tentar fornecer informações que possibilitem uma gestação mais tranquila. Abordarei semanalmente assuntos baseados nas dúvidas do meu dia a dia no consultório e na minha vivência como gestante, puérpera e mãe. Recentemente eu decidi fazer postagens também com relatos de parto, para dividir as experiências vividas pelas mamães, contadas por elas.

Não esqueçam de deixar um comentário sobre o que acharam do blog, dúvidas ou sugestões para os próximos posts. Se acharem que as informações são úteis, compartilhem e sigam nossas páginas no instagram (@blogacaminho) e facebook (fb.com/blogacaminho).

 

Obrigada pela visita!

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