A importância das Doulas

         Um dia eu ouvi de uma colega Obstetra esta frase: “toda primigesta deveria ter uma Doula”. Acredito que não só as primigestas, mas a maioria das gestantes que desejam um parto normal, ou uma cesariana diferente.

         Não quero criar polêmicas, impor minha opinião, mas eu acho a presença delas no parto bastante importante, para ser mais clara, elas são “úteis”, dão um suporte essencial para a gestante, no pré parto, no trabalho de parto e no pós parto. O acompanhante da paciente tem uma liberdade maior quando elas estão presentes, além de ficarem menos “apavorados” com as contrações. Para escrever este post eu pedi ajuda para quem mais entende desta função, uma Doula. Vou permear partes do texto que ela escreveu com os meus comentários e talvez por isso este se torne o maior post já escrito aqui no blog. As partes em itálico foram escritas por uma Doula.

     Doula vem do grego “mulher que serve”, ou seja, oferece à gestante, família, companheiro (a), o suporte físico, emocional e informativo antes, durante e depois do parto. Uma dedicação de cuidar das futuras, já experientes ou de primeira viagem, mamães. Em meio a um turbilhão de emoções e assuntos desconhecidos, a doula é apoio, incentivo, confiança e vínculo. Um “aqui estou”, um sorriso, uma palavra, um toque, um silêncio. Na esfera do parto e nascimento, a assistência e presença de uma equipe especializada, faz-se necessária, cada um com sua função bem definida neste cenário.

       Para entender o processo de gestar, muitas mulheres “pensam em parir” mas, “não preparam-se para parir”. Ao deparar-se com os desafios, dificuldade de entrega, fragilidade emocional, assustam-se e desistem. A procura da doula é uma maneira de ter um auxílio nesta caminhada, travessia. O trabalho da doulagem é milenar, mas ficou esquecida ao longo do tempo, pois a consciência do parir modificou-se. Há mais ou menos 60 anos, com os avanços da medicina, o parto saiu da mulher e tornou-se institucionalizado. O resgate está acontecendo em busca do natural e fisiológico, desmitificando práticas através da medicina baseada em evidências. A doula participa deste momento, valorizando o protagonismo e empoderamento feminino.

        Antigamente não existia a opção de cesariana, as pacientes naturalmente entravam em trabalho de parto e isso fazia parte do processo de se tornar mãe. Infelizmente por um lado e felizmente por outro, a cesariana entrou com muita força nos últimos tempos e, hoje em dia, por medo, comodidade ou simplesmente por vontade, algumas pacientes já entram na primeira consulta querendo saber qual será o dia da cesariana.

         Talvez neste processo de “convencimento” e "conhecimento" das pacientes para tentar um parto normal o trabalho da Doula seja bastante adequado. Hoje em dia enfrentamos uma epidemia de cesarianas que vem junto com outra (ainda bem) da Humanização do Parto. Porém, não podemos esquecer, que nem todas as pacientes querem um parto, mas elas têm direito, sempre, de tentar, desde que isso não coloque ela ou o bebê em risco. A Doula nos ajuda também no sentido de não deixar as pacientes desistirem, não deixar que elas sejam “afogadas” pelas muitas opiniões contrárias ao parto. Eu sempre digo que o parto normal é uma batalha diária e precisa ser vencida pela paciente, mas especialmente, precisa ser “comprada” por todos aqueles que fazem parte do processo.

        O papel da doula antes do parto é de orientar sobre o que esperar do parto e pós-parto, informar sobre procedimentos e ajudar na preparação emocional e física de variadas formas. Durante o trabalho de parto a doula favorece a manutenção de um ambiente tranquilo e acolhedor, com silêncio e privacidade, estimula a participação do acompanhante, ajuda a parturiente a encontrar posições mais confortáveis para o trabalho de parto e parto, mostra formas eficientes de respiração e propõe medidas naturais que podem aliviar as dores, como banhos, massagens, relaxamento, etc. Após o parto ela realiza visitas à nova família, oferecendo apoio para o período de pós-parto, incentivando o aleitamento materno exclusivo e cuidados com o recém-nascido.

        A doula não substitui o pai ou o acompanhante de escolha da gestante. O tipo de apoio contínuo durante o trabalho de parto mais benéfico é aquele que é oferecido por uma pessoa que está lá apenas para isso, não sendo parte do círculo social da parturiente, que tenha experiência em oferecer apoio e que tenha recebido algum tipo de treinamento para exercer este papel. A doula não interfere em qualquer conduta dos profissionais tradicionalmente envolvidos na assistência ao parto, não é sua função discutir procedimentos com a equipe ou questionar decisões.

        A doula, mesmo que fundamental na sua participação, tem o seu papel e o médico assistente tem o seu. Cada um com o seu protagonismo, como costumo dizer. Nunca podemos esquecer que a obstetrícia é uma caixinha de surpresas. Precisamos ter um plano B para casos de urgência e, quando isso acontece, é importantíssimo que a Doula não interfira no trabalho do médico, que a paciente confie em quem está atendendo ela no momento do parto. Em alguns casos, a decisão é médica, e precisa ser médica, sem espaços para “discussões”. Não podemos colocar em risco o binômio mãe-bebê em prol de uma decisão conjunta com a paciente.

        A doula, tem sua função reconhecida e contemplada nas evidências científicas, garante a satisfação da mulher com seu parto, proporciona o alívio da dor durante o trabalho de parto, melhora os índices de sucesso na amamentação no pós parto e enfrentamento do puerpério com mais tranquilidade, independente da via de nascimento de seu bebê, reduzindo os casos de Baby Blues e depressão pós parto. Desde 2013, a doula é registrada legalmente na CBO – Classificação Brasileira de Ocupações. Infelizmente, a presença da Doula não é garantida, nem autorizada por lei nos hospitais públicos e privados de Porto Alegre. Mas graças ao movimento e programa de Humanização do Parto e Nascimento, este direito está sendo conquistado e, alguns ótimos hospitais, estão autorizando a participação e valorizando a atuação da Doula de escolha da gestante.

           Todo este trabalho descrito é o centro de etapas fundamentais para a humanização do parto e do atendimento a esta mulher para um nascimento respeitoso. Humanizar é acreditar na fisiologia da gestação e do parto. É respeitar aspectos culturais, individuais, psíquicos e emocionais da mulher e de sua família. Humanizar é devolver o protagonismo do parto à mulher. É garantir-lhe o direito de conhecimento e escolha.

       Por sorte, estamos evoluindo na questão das Doulas, assim como evoluímos na participação de um acompanhante durante o parto ou cesariana, com a modernização das maternidades na tentativa de criar um ambiente mais favorável ao nascimento, mais acolhedor. Mesmo assim, ainda temos uma série de entraves com relação a participação das Doulas no processo de nascer. Por outro lado, felizmente, as pacientes estão deixando cada vez mais espaço para a tentativa de terem um parto normal e isso aumenta a vontade delas de terem uma Doula. A escolha da Maternidade precisa levar isso em conta. Aqui em Porto Alegre alguns Hospitais simplesmente não permitem, outros tem uma espécie de cadastro prévio e outros, ainda, avaliam caso a caso. Quando vocês decidirem pelo parto e desejam ter uma Doula, investiguem se o Hospital escolhido permite sua presença. É bastante frustrante chegar na maternidade e não poder ter um parto conforme planejado, pior, descobrir isso quando o processo já está começando e as contrações já confundem um pouco nossa capacidade de raciocínio.

      “O apoio contínuo durante o trabalho de parto traz benefícios clínicos significativos para as mulheres e seus bebês, sem provocar nenhum dano evidente. Todas as mulheres deveriam receber apoio contínuo durante o trabalho de parto e parto”.(http://www.cochrane.org/pt/CD003766/apoio-continuo-para-mulheres-durante-o-parto)

        Então, como eu já disse em posts anteriores, não fechem a porta do parto normal, conheçam, entendam, conversem com o obstetra sobre esta opção e, quando estiver pronta e, se estiver pronta para encarar um trabalho de parto, avalie todas as opções que podem trazer benefício neste momento, que podem torná-lo mais agradável, mais tranquilo. Juro para vocês que, salvo raríssimas exceções, o trabalho de parto não traumatiza, é um momento lindo, que a mulher se sente plena. Não é a toa que a frase mais dita depois do bebê nascer é “eu consegui”. A sensação é exatamente essa, de “ser capaz”. Pensem nas Doulas, conheçam o seu trabalho. Elas são importantes. Eu costumo dizer que a minha foi uma espécie de fada madrinha que ajudou a Alice a chegar ao mundo de uma forma mais fácil (contarei em detalhes nos próximos posts), ou menos difícil, para as mais pessimistas.

         Obrigada Doula Janine por me ajudar a escrever. O trabalho de vocês é lindo, muito importante. Nunca percam o foco.

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Bem vindas!

Meu nome é Maria Fernanda, sou obstetra, mãe da Alice e aprendiz da maternidade. Sejam todos bem vindos ao meu blog!

 

Em 2015 eu vivi uma experiência incrível com a minha gestação. Estando do outro lado da cortina, pude entender melhor algumas dúvidas comuns entre as pacientes. Com isso, surgiu a ideia de fazer um blog. Através dele vou tentar fornecer informações que possibilitem uma gestação mais tranquila. Abordarei semanalmente assuntos baseados nas dúvidas do meu dia a dia no consultório e na minha vivência como gestante, puérpera e mãe. Recentemente eu decidi fazer postagens também com relatos de parto, para dividir as experiências vividas pelas mamães, contadas por elas.

Não esqueçam de deixar um comentário sobre o que acharam do blog, dúvidas ou sugestões para os próximos posts. Se acharem que as informações são úteis, compartilhem e sigam nossas páginas no instagram (@blogacaminho) e facebook (fb.com/blogacaminho).

 

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