Um parto sem dor!

       Uma das coisas que mais assusta e desencoraja a paciente quando o assunto é parto normal é a dor. Ninguém gosta de sentir dor e, para muitas, a dor do parto poderia ser evitada fazendo uma cesariana. Infelizmente não é assim. Eu seria hipócrita se tentasse convencer as pessoas que é possível ter um parto sem dor. Não existe nascimento sem dor. Mesmo que uma cesariana eletiva seja mais fácil, teoricamente, a recuperação é um pouco mais dolorida. Passar por uma gestação, parto e puerpério sem dor é bem difícil.

         Antes de pensar na dor e tentar achar uma escala para mensurá-la, precisamos levar em conta que a sensação da dor é absolutamente subjetiva e você não vai saber se consegue ou não passar por ela sem tentar. Eu sempre tento exemplificar a dor do parto levando em conta outras dores que me parecem, veja bem, parecem, tão intensas quanto, como uma cólica renal, por exemplo. Porém, ainda assim tenho pacientes que vivenciaram as duas formas de dor e acham a contração muito pior. 

          Sempre que eu visito uma paciente no 1º dia pós parto normal, eu questiono sobre a vivência dela no parto. Basicamente eu pergunto se ela gostou da experiência. A resposta é afirmativa em quase 100% das vezes. Certa vez eu conversei com uma paciente que queria muito parto, desde o início e ela disse assim: “sempre me disseram que seria igual uma cólica renal, mas não, foi bem pior. Foi muito intenso, mas eu estou realizada, faria de novo”. Mesmo depois de muita dor, em geral elas estão felizes, fariam tudo de novo. A satisfação do nascimento de um filho, em geral, minimiza a dor do parto.

       Outro dia eu li que a maioria das pacientes diminui a intensidade da dor do parto depois do nascimento, pois estão tão realizadas e satisfeitas com a experiência que a dor perde a importância. Eu não lembro mais da intensidade das minhas contrações, não consigo dizer se foram insuportáveis, passaria por isso de novo, mas eu tenho noção que foi intenso, que não é fácil, tanto que eu fiz analgesia e não me arrependo.

         Algumas pacientes chegam para iniciar o pré natal dizendo “vou fazer cesárea porque não quero sentir dor na hora de nascer”, ou então, “posso fazer aquele parto sem dor”. A cesariana é uma cirurgia e, como tal, tem um pós operatório, com alguma dor. Lógico que ela varia de acordo com a percepção de cada paciente, mas precisamos entender que ter um corte na barriga também pode ser bem desconfortável. Quanto a ter um parto sem dor, o termo não seria bem este.

        Não quero desencorajar ninguém, muito menos traumatizar quem já está grávida. Gestar é lindo e, mesmo com dor, o prêmio de ter um filho vale cada segundo dos 9 meses. Existem inúmeras formas de alívio da dor, farmacológicas ou não. Porém, para que estas técnicas sejam usadas precisamos estar em trabalho de parto, ou seja, já com contrações. Logo, para fazer analgesia de parto e ter o tal “parto sem dor”, primeiro precisamos ter a dor do parto. É preciso esclarecer nas consultas de pré natal que tudo tem seu momento e precisamos oferecer as opções para a paciente num crescente, sempre deixando as mais complexas e invasivas para o final.

        Muitos hospitais já dispõem de uma estrutura bastante adequada para um parto normal menos intervencionista. Os quartos são individuais, com chuveiro individual, barra de segurança, bola de pilates, espaço para deambular, cama de parto, alguns têm até banheira (aqui em Porto Alegre não). Assim a paciente interna no mesmo local que vai permanecer até o nascimento do bebê. Inclusive, em alguns lugares, podendo fazer a recuperação do procedimento neste mesmo espaço, tendo alta do Centro Obstétrico direto para o quarto da internação, na Maternidade.

         Uma das coisas que mais ajuda no trabalho de parto é água quente nas costas. Se você ligar o chuveiro, sentar numa bola de pilates e diminuir a luz do banheiro, fica INCRÍVEL. Eu fiquei um bom tempo no banho quando as contrações não eram regulares e foi um santo remédio. A sensação de alívio da água quente na região lombar é mágica. Para aquelas pacientes que querem muito um parto normal, com pouca intervenção, a escolha de um Hospital que tenha acesso liberado a um chuveiro precisa ser considerada.

         Eu já falei no post anterior que a presença de uma Doula durante o trabalho de parto pode ser milagrosa. Além do suporte emocional, elas têm várias técnicas para controle da dor, como massagens, movimentos de dança, exercícios. Orientam posições mais confortáveis, técnicas de respiração… quem quiser e puder conversar com uma Doula vale muito a pena.

        Hoje em dia existem cursos de preparo para o parto normal, que ensinam formas de alívio da dor e “treinam” aquele que será o acompanhante do parto para executá-las. Além disso, algumas maternidades, mesmo as do SUS, tem uma equipe super bem preparada para manejo não farmacológico da dor, com funcionárias disponíveis para colocá-las em prática. Vocês precisam levar tudo isso em conta na hora de escolher onde vão ter seus bebês, especialmente se optarem por um parto normal.

        Quando as pacientes chegam ao consultório pedindo por um parto normal, a maioria tem noção que vai sentir dor. Talvez não tenham ideia de como será essa dor, ou então se vão suportar esta dor, mas sabem que ela vai existir. Aquelas que desejam um parto humanizado, algumas vezes são contrárias a todas as formas farmacológicas para controle da dor e isso precisa ser conversado e conversado e conversado de novo no pré natal. Volto a afirmar que não podemos ser radicais. As portas não podem ser fechadas.

       Algumas pacientes são avessas a analgesia de parto, aquela feita nas costas, por um Anestesista mesmo. Confesso que eu gosto bastante. Acho que ela ajuda. Costumo dizer que a analgesia dá para a gestante umas 2h de alívio, descanso, sem atrapalhar o trabalho de parto, e quando ela passa você tem mais força para o gás final. Eu fiz analgesia. Pensando retrospectivamente, eu não acho que ela tenha sido necessária, Alice estava quase nascendo, mas na hora eu achei ótimo. Consegui descansar um pouco e quando a dor voltou estava com as forças renovadas.

          Costumo dizer que as pacientes voltam a sorrir depois da analgesia. Calma, eu explico. Às vezes as contrações estão tão intensas que a paciente para de curtir o trabalho de parto. A analgesia, quando bem indicada e discutida previamente com as pacientes, faz com que ela volte a aproveitar o seu parto. Lógico, nem todas vão precisar. Muitas vezes a paciente chega ganhando e não dá tempo ou então ela tem uma percepção de dor que possibilita não precisar de analgesia. Como eu disse, isso varia muito de pessoa para pessoa.

          Existe um momento “ideal” para a analgesia, com uma dilatação boa, colo favorável, contrações regulares. Quando ela é feita muito cedo corremos o risco de atrapalhar mais do que ajudar. Acredito que muitas pacientes não pedem analgesia por acharem que ela atrapalha o parto, outras porque não querem demonstrar fraqueza. Vocês não são fracas por precisarem de um alívio da dor. O parto será tão lindo quanto e vocês serão tão poderosas quanto, com ou sem analgesia.

         Precisamos sempre levar em conta que o nascimento precisa ser prazeroso. A forma como ele acontece precisa ser boa. No final das contas, a experiência tem que ser gratificante. Por isso, não fechem as portas da analgesia, farmacológica ou não.

Compartilhe
Compartilhe
Curtir
Please reload

Bem vindas!

Meu nome é Maria Fernanda, sou obstetra, mãe da Alice e aprendiz da maternidade. Sejam todos bem vindos ao meu blog!

 

Em 2015 eu vivi uma experiência incrível com a minha gestação. Estando do outro lado da cortina, pude entender melhor algumas dúvidas comuns entre as pacientes. Com isso, surgiu a ideia de fazer um blog. Através dele vou tentar fornecer informações que possibilitem uma gestação mais tranquila. Abordarei semanalmente assuntos baseados nas dúvidas do meu dia a dia no consultório e na minha vivência como gestante, puérpera e mãe. Recentemente eu decidi fazer postagens também com relatos de parto, para dividir as experiências vividas pelas mamães, contadas por elas.

Não esqueçam de deixar um comentário sobre o que acharam do blog, dúvidas ou sugestões para os próximos posts. Se acharem que as informações são úteis, compartilhem e sigam nossas páginas no instagram (@blogacaminho) e facebook (fb.com/blogacaminho).

 

Obrigada pela visita!

Compartilhe:
  • Facebook Social Icon
  • Google+ Social Icon
  • Twitter Social Icon
  • Pinterest Social Icon
Mais lidos:

Movimentação Fetal!

16/09/2020

1/5
Please reload

Tags:
Please reload

This site was designed with the
.com
website builder. Create your website today.
Start Now