Indicações de cesariana


A ideia deste post veio de uma paciente que quer muito parto normal, mas o bebê é grande, os pitacos são muitos, as dúvidas enormes e a ansiedade só aumenta. Conversamos bastante sobre indicações de cesariana e sobre ser ou não necessária e ela achou importante dividir nossa conversa com todo mundo.

Uma das coisas mais fáceis é indicar uma cesariana. Fácil não só no sentido de praticidade, mas também no que diz respeito à “convencimento”. Talvez por isso seja tão injusto. Gestar, embora seja uma experiência mágica, também é um momento de extrema fragilidade, às vezes física, mas principalmente emocional. A gestante encontra-se num mar de alterações hormonais, mudanças profundas no corpo e mudanças de vida, que durarão para sempre. Depois que você embarcar no trenzinho da gravidez não tem mais como descer.

Sempre que uma paciente grávida do seu segundo filho me procura eu faço todo um levantamento, detalhado, da primeira gestação. Além de saber como foi, anotar possíveis situações de riscos e conhecer um pouco a sensação dela com a experiência anterior, eu quero mesmo é saber do nascimento propriamente dito.

Se ela teve parto tento questionar sobre a vivência dela naquela ocasião, se foi boa ou ruim, se foi prazerosa e se pode ser repetida. Como eu já disse em posts anteriores, a maioria das experiências de parto não são traumáticas, mas nenhuma delas deveria ser. Isso depende muito da percepção de cada paciente, do quanto elas se prepararam para aquele momento. Precisamos conversar sempre para saber se a paciente está disposta a tentar de novo e seus motivos para querer ou não.

Quando elas têm uma cesariana prévia, minha curiosidade se aguça ainda mais. Gosto de saber os detalhes, motivo, idade gestacional, peso do bebê ao nascer, circular de cordão, tudo, absolutamente tudo que ela possa lembrar. Se formos bem a fundo conseguimos ter uma noção de quais tiveram mesmo uma indicação obstétrica clara e quais foram por outros motivos, não desnecessários, mas menos urgentes.

Por que eu faço isso? Infelizmente, como eu disse antes, é fácil arrumar uma indicação de cesariana. Em geral as pacientes estão mais cansadas física e emocionalmente no último trimestre, mais ansiosas e, por consequência, mais “convencíveis”. Sempre tem aquela pessoa que vê a ecografia, ou pior, a barriga e diz “que bebê enorme, não vai nascer de parto”.

Pronto, temos implantada a pulguinha da cesariana que, quando a gestante não está completamente convencida da sua escolha ou sem suporte familiar para um parto, pode atrapalhar tudo. Se essa pulguinha for plantada por quem faz o pré natal ou por alguém da área da saúde então, teremos um grande problema.

Nosso país tem um índice absurdo de cesarianas. Na maior parte dos hospitais privados as taxas ultrapassam os 80%. Além de estarmos submetendo um número elevado de mulheres a uma cirurgia desnecessária, estes números acabam banalizando um procedimento cirúrgico e criando uma falsa ideia de que cesariana é, de fato, mais fácil.

Pensando somente pelo lado prático da coisa, a cesariana é mesmo mais fácil. Tem hora marcada, lugar definido, jejum adequado, o cabelo pode ser escovado no dia da cirurgia, as unhas feitas, banho tomado, maquiagem e perfume. Marido a postos, com todos os apetrechos tecnológicos ligados, família, cachorro e papagaio esperando no “vidro” pela chegada do bebê. Porém, como toda cirurgia, tem os riscos inerentes ao procedimento e eles precisam ser explicados no momento da indicação.

Essa “praticidade” da cesariana faz com que algumas pacientes decidam por ela já no início do pré natal. Algumas gestantes sentam na minha frente na primeira consulta dizendo “não quero sentir dor, quero cesariana”. Eu sempre tento convencê-las do contrário, mas, infelizmente, a cultura de cesariana está muito presente nos dias de hoje. Muitas decidem tentar, mas muitas seguem sua escolha inicial, até porque muitas famílias também acham que uma cesariana é melhor e mais segura.

Ficou muito simples para médicos e pacientes optarem por uma cesariana. Acredito que parte da culpa seja dos médicos, que não tem muito tempo, são mal remunerados, mas não podemos deixar de levar em consideração que as pacientes também tem o poder da escolha e muitas delas querem cesariana, ou optam por cesariana quando “cansam de gestar”. A família e os amigos têm muita influência nessa hora, muitas vezes mais do que o médico assistente.

Existem algumas indicações obstétricas de cesariana, orientadas pela Sociedade Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, não vamos discutir estas. O que me incomoda são as cesarianas indicadas porque o bebê está com o cordão enrolado no pescoço ou o bebê é muito grande para nascer, por exemplo.

Como assim o cordão está enrolado no pescoço? Eu vejo muitas pacientes referindo que fizeram cesariana por este motivo. O bebê se enrola e se desenrola do cordão e isso não lhe traz nenhum prejuízo. Muitos bebês nascem de parto, berrando, super saudáveis, com uma circular de cordão, as vezes apertada.

Quanto ao peso, a indicação clara de cesariana são bebês acima de 4.500g, raríssimos. Lógico, precisamos sempre levar em conta o tamanho da mãe e a estrutura da sua bacia quando pensamos em parto normal, mas indicar cesariana porque o bebê é muito grande e não vai passar, sem critérios para esta indicação, não está certo. Eu sempre digo para as pacientes que só teremos certeza que o bebê não vai passar quando ele tentar passar. Se não der, tudo bem, indicamos uma cesariana por desproporção entre a pelve materna e a cabeça do bebê. Antes disso, só pelo achômetro, não vale. Até porque, o peso do bebê é uma estimativa, que pode não se confirmar.

Importantíssimo!!! Precisamos sempre respeitar aquelas pacientes que não querem tentar um parto e optam por uma cesariana eletiva. DESEJO MATERNO também é indicação de cesariana.

A redução nas taxas de cesariana envolve um trabalho contínuo das equipes de saúde na tentativa de estimular o parto normal, mas também de convencimento da sociedade de que a melhor via para nascer, quando está tudo bem na gestação, é o parto normal. Mesmo que ele não aconteça, que a cesariana seja necessária no decorrer do processo, é importante tentar.

Bem vindas!

Meu nome é Maria Fernanda, sou obstetra, mãe da Alice e aprendiz da maternidade. Sejam todos bem vindos ao meu blog!

 

Em 2015 eu vivi uma experiência incrível com a minha gestação. Estando do outro lado da cortina, pude entender melhor algumas dúvidas comuns entre as pacientes. Com isso, surgiu a ideia de fazer um blog. Através dele vou tentar fornecer informações que possibilitem uma gestação mais tranquila. Abordarei semanalmente assuntos baseados nas dúvidas do meu dia a dia no consultório e na minha vivência como gestante, puérpera e mãe. Recentemente eu decidi fazer postagens também com relatos de parto, para dividir as experiências vividas pelas mamães, contadas por elas.

Não esqueçam de deixar um comentário sobre o que acharam do blog, dúvidas ou sugestões para os próximos posts. Se acharem que as informações são úteis, compartilhem e sigam nossas páginas no instagram (@blogacaminho) e facebook (fb.com/blogacaminho).

 

Obrigada pela visita!

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