A arte de Amamentar!

      Em homenagem a semana da amamentação, o post deste domingo será sobre este tema tão importante, mas que gera tantas dúvidas e tanta ansiedade nas mães.

        Sempre que alguém fala sobre amamentação surge um caminhão de opiniões a respeito do assunto e milhões de palpites. Essa sabedoria popular me deixa um pouco preocupada. As mamães já ficam tensas com a amamentação antes mesmo do bebê nascer. A cobrança já começa durante a gestação.

       Antes da Alice nascer eu achava amamentar uma coisa super simples. Afinal de contas, o leite está ali, disponível, você está de licença, “sem fazer nada”, não tem nenhuma razão para não dar certo. Aí ela nasceu e veio aquele clássico banho de água gelada. Ops, não é bem assim.

     Dizer que amamentar é importante é desnecessário, que colabora com o desenvolvimento do bebê, melhora sua condição de saúde, favorece o vínculo dele com a mãe, fortalece sua imunidade… tudo isso é incontestável. Porém, não podemos banalizar o processo de amamentação. Às vezes não é tão simples assim.

       Alice já começou a mamar na sala de parto, achei facílimo, tiraria de letra, certamente. Porém, conforme os dias foram passando, a produção foi aumentando, o peito ingurgitando (empedrando) e os mamilos ficando em frangalhos. Minha luta para amamentar começou ainda na primeira semana.

     Que fique bem claro, eu acho importantíssimo a amamentação. Trabalho isso diariamente nas consultas. Aqui em casa tivemos amamentação exclusiva até os 6 meses, só leite do peito até 1 ano e seguiu mamando até 1a4m, porém foi um pouco mais complexo do que eu imaginava.

        Depois de passar por um parto normal e por 16 meses de amamentação, não tenho nenhuma dúvida em dizer que o parto foi infinitamente mais fácil. Não quero desencorajar ninguém, muito pelo contrário. Amamentar é demais. Mesmo com dificuldades, é possível conseguir e vale muito a pena. Hoje eu não sinto falta da minha barriga de grávida, mas sinto muita falta de amamentar.

       Quando a criança nasce, a cobrança pela amamentação é imediata. Por sorte hoje, tanto em parto normal, quanto em cesariana, primamos pelo contato pele a pele na primeira hora de vida e isto estimula a amamentação precoce, que é fundamental para o binômio mãe-bebê. No entanto, amamentar precisa ser um prazer e não uma obrigação. Mesmo com dor, porque as vezes dói, você precisa estar feliz com o processo e não sofrendo a cada mamada. Até porque a tal livre demanda, eventualmente, não te dá nenhuma folga.

         Na primeira semana eu estava toda atrapalhada, com muita dor e com muito leite. Em alguns momentos quando ela pedia para mamar eu pensava “de novo não”... eu chorei, eu fiz banho de sol, comprei as conchas protetoras, usei muito dersane, mas eu amamentei muito e isso me deixa imensamente feliz.

        Conheço mulheres que amamentam com a facilidade com que eu tomo um chimarrão. Não sentem nada, nunca. Mesmo sendo primigestas, algumas mães simplesmente tiram de letra. Confesso que tenho uma certa inveja dessas pessoas, mas uma inveja do bem. Um misto de inveja com admiração.

       Por outro lado, conheço uma porção de gestantes que, como eu, não achou tão fácil, teve dificuldades, precisou de medicação para estimular a produção de leite, precisou de paciência, suporte familiar, médico, do google… e mesmo assim não desistiu, amamentou.

        Também conheço uma série de mães que não amamentaram, por vários motivos, e elas não são menos mães, ou menos corajosas, ou amam menos seu filhos. Simplesmente não querem, ou não conseguiram amamentar. O importante é respeitar os limites da gestante, não pressionar, não julgar, não criticar. Já temos uma série de desafios a serem vencidos depois que o bebê nasce, precisamos aprender a facilitar a vida, não complicar ainda mais.

         Um dia eu estava atendendo, Alice ainda mamava, era bebezinha, e a paciente entrou no consultório, mãe de gêmeos, com amamentação exclusiva dos dois, gordinhos, cheios de saúde. Nunca vou esquecer desta mãe. Eu senti uma pontinha de inveja por ela tirar de letra este processo, mas também senti tanta admiração por ela estar bancando a amamentação de duas crianças, sem nem questionar. Ela simplesmente entendeu que era preciso, ponto.

        Sim, existem mamães que produzem uma quantidade maior de leite. Para estas, e para todas que desejam tentar, uma dica boa é conhecer os bancos de leite da cidade e doar para os bebês internados. Além de melhorar a sua própria produção - quanto mais tiramos, mais produzimos - vocês estarão ajudando muito outras crianças. Aqui em Porto Alegre os bancos de leite dão todas as orientações necessárias para a coleta e passam na casa das mamães uma vez por semana para buscar a produção. Acreditem, é um gesto incrível de amor.

       Temos inúmeras formas de tornar este momento mais fácil e mais prazeroso. Temos medicações para estimular a produção de leite, temos máquinas elétricas ou manuais que possibilitam a retirada do excesso e o armazenamento de leite e temos consultoras de amamentação, nos bancos de leite ou então profissionais desta área, que ajudam a facilitar este processo tão importante e tão complexo.

        Algumas vezes, depois de amamentar eu sentia tanta dor que minha única vontade era ir direto na farmácia e comprar uma fórmula. Nestes momentos o suporte da minha família, das amigas mães, do marido... foi essencial. Todo mundo sempre estimulou a amamentação, mas nunca, em momento algum me julgaram por estar achando difícil.

         Uma coisa importantíssima que poucas vezes a gestante escuta é que ela tem o direito de estar cansada, de saco cheio, de querer tomar um banho e não ficar cheirando a leite 24h por dia. Precisamos dar mais espaço para as mulheres serem mães de recém nascidos e, principalmente, cobrar menos delas por isso.

          Mesmo que você tenha nascido para ser mãe, tenha sonhado com este dia a vida toda, quando ele chega as mudanças são e serão enormes. Pior, você não tem tempo de adaptação. É pegar ou largar, de cara. Aquela pessoinha depende completamente da gente, do nosso amor, da nossa atenção e do nosso leite.

          Mamães e futuras mamães, tenham paciência com vocês mesmas, não se cobrem tanto, não exijam tanto, não percam os cabelos tentando estabelecer regras e rotinas na primeira semana. Com o passar dos dias vocês começam a conhecer melhor o bebê, seus choros e vontades e a amamentação vai ficando mais fácil.

          Quando seu bebê nascer, ou mesmo antes disso, converse com seu pré natalista, com suas amigas, a mãe, a sogra… sobre amamentação. Tente esclarecer dúvidas sem criar muita expectativa e, mais importante, sem criar nenhuma obrigação. Amamentar precisa ser um prazer natural, um momento de paz entre mãe e bebê.

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Bem vindas!

Meu nome é Maria Fernanda, sou obstetra, mãe da Alice e aprendiz da maternidade. Sejam todos bem vindos ao meu blog!

 

Em 2015 eu vivi uma experiência incrível com a minha gestação. Estando do outro lado da cortina, pude entender melhor algumas dúvidas comuns entre as pacientes. Com isso, surgiu a ideia de fazer um blog. Através dele vou tentar fornecer informações que possibilitem uma gestação mais tranquila. Abordarei semanalmente assuntos baseados nas dúvidas do meu dia a dia no consultório e na minha vivência como gestante, puérpera e mãe. Recentemente eu decidi fazer postagens também com relatos de parto, para dividir as experiências vividas pelas mamães, contadas por elas.

Não esqueçam de deixar um comentário sobre o que acharam do blog, dúvidas ou sugestões para os próximos posts. Se acharem que as informações são úteis, compartilhem e sigam nossas páginas no instagram (@blogacaminho) e facebook (fb.com/blogacaminho).

 

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