Não esqueçam a puérpera!


Minha gestação foi muito tranquila e meu parto também. Eu tive um suporte excepcional do meu obstetra, da minha família e da família do Thiago. Com toda certeza isso tornou tudo muito mais fácil. No entanto, ter suporte, todo o amor do mundo e muito cuidado não tornou meu pós parto (puerpério) mais fácil. Puerpério é o período que vai desde a expulsão da placenta até 6-8 semanas após o parto. É sobre ele que eu quero falar hoje.

Calma, nada de ruim aconteceu, eu lidei com tudo muito bem, consegui amamentar, perdi peso e voltei a minha rotina de vida normal muito cedo. Mesmo assim, não quer dizer que o furacão de mudanças que vem depois do parto seja fácil. Não, não é.

Um belo dia você acorda, corpo estranho, peitos doendo, náuseas sem nenhum motivo… ops, cadê minha mesntruação? Estou grávida, e agora? Passado o susto, você entra num processo de felicidade completa. A maioria das gestantes se torna o centro das atenções em casa, no trabalho, algumas no mundo e isso dá uma sensação de bem estar incrível. Quem não gosta de ser cuidada?

Os 9 meses que se seguem são de intensas mudanças, planos, inseguranças, medos, mas, acima de tudo, FELICIDADE. Gerar uma vida é uma experiência muito gratificante. Mesmo nas pacientes de segunda, terceira, quarta viagem, cada gestação traz sempre novas expectativas, como se o coração se multiplicasse para caber mais amor dentro.

Neste período você descuida um pouco da dieta, pela primeira vez na vida você sonha com um barrigão enorme. Até faz fotos mensais para acompanhar a evolução da pança. Se acha linda demais, magrinha, até subir na balança e ser chamada a vida real… Todas as pessoas do mundo conversam com você, dividem experiências, dão palpites (ai os palpites), querem ver sua barriga e, às vezes, colocar a mão nela. Sua família está sempre a disposição, seu marido faz todas as suas vontades e, quando ele não faz, alguém faz.

Você passa 19, 20 semanas sonhando com o dia que o bebê vai mexer, depois reza pra ele parar um pouquinho, morre de ansiedade quando ele fica quietinho, depois começa a tomar uns chutes nas costelas e fica pensando que se ele dormisse não seria nada mau.

Então, os meses de gestante são intensos, em todos os sentidos. Você se torna, de uma hora pra outra, uma agente dupla, com necessidades diferentes, rotinas diferentes e obrigações diferentes. Aí, um belo dia, com ou sem aviso prévio, o bebê resolve nascer e o foco das atenções muda completamente. Você sai de cena para dar lugar a esse “serumaninho” lindo, com o qual você sonhou nos últimos 9 meses.

Óbvio que esta mudança de foco é absolutamente comum, aceitável, porém podemos e DEVEMOS seguir cuidando das nossas puérperas depois que o bebê nasce. Precisamos entender que, mesmo não sendo mãe de primeira viagem, de uma hora pra outra ela vê seu mundo todo desabar e começar de novo, agora com uma pessoinha que chora muito, mama muito e, às vezes, não dorme tanto assim.

Independente de ter sido parto ou cesariana, a paciente passa por uma mudança física e emocional grande na transição da gestação para o puerpério. As horas de sono diminuem, você passa grande parte do dia de pijama e fica muito feliz se não está cheirando a leite ou pior, a coco. Neste momento você se dá conta que todo mundo só pensa no bebê e é preciso ter maturidade para entender que isso é um processo normal e você, mesmo que indiretamente, está incluída nele.

Nos primeiros dias depois do nascimento da Alice eu não quis muitas visitas. Resolvi ficar só em família, com a minha mãe e alguns amigos mais próximos. Eu me sentia muito estranha, ainda com barriga, mas não mais grávida, sempre de banho tomado, mas sempre cheirando a leite, sempre bem disposta, mas cheia de olheiras, tendo que amamentar o tempo todo, mesmo que isso fosse bem difícil. Eu me dei o direito de me “esconder” e, na verdade, acho isso fundamental. É preciso um tempo para conhecer o bebê e se conhecer como mãe.

Neste período minha mãe e meu marido foram fundamentais, bem como todo o suporte que eu tive da família e dos amigos. Eu tinha certeza que a Alice era o centro do mundo de todos eles, mas eu também tinha certeza de que todo mundo estava preocupado comigo e com meu bem estar.

Confesso que não fiz revisão pós parto. Deixei de ser paciente no exato momento que eu deixei a maternidade, de alta. A partir dali eu assumi os cuidados comigo mesma e não foi muito legal. Eu continuava paciente, não médica, deveria ter aceitado isso, seria mais fácil. Por algum tempo eu fiz todas as coisas de acordo com minha experiência profissional, mas eu era mãe e não obstetra. Sorte que minha mãe estava perto e tinha toda liberdade do mundo para puxar minha orelha e me fazer mudar de ideia.

A gestante precisa ser cuidada, acarinhada, acolhida. A puérpera também precisa de cuidados, talvez mais do que antes. Depois que o bebê nasce, algumas pessoas esquecem que, junto com ele, nasce uma mãe, completamente inexperiente com este bebê e que precisa de ajuda, não só para as coisas de casa, mas para os cuidados da alma. A puérpera precisa se sentir acolhida, amada, precisa ser cuidada.

É muito importante prestarmos atenção nas mulheres depois que o bebê nasce. Nesta fase, as vezes por descuido, por falta de atenção, ou mesmo porque algumas mulheres são muito fortes e não deixam transparecer o desespero, sintomas depressivos, algumas vezes agressivos, choro e irritabilidade passam despercebidos, achamos comuns. Não são, precisam de suporte, podem e devem ser tratados.

Outro dia uma puérpera veio me ver com uma queixa estranha, muito vaga. Durante a conversa eu entendi que ela só precisava de um abraço, precisava que alguém dissesse que ela não precisa ser forte o tempo todo. Ela pode dormir, pode comer, pode fazer xixi, o bebê não vai se sentir abandonado. Ela pode, eventualmente, sentir-se cansada na hora de amamentar, faz parte. Ela pode acordar pela milésima vez na mesma noite e estar de saco cheio, tem o direito de estar cansada.

Prestem atenção nas puérperas, não deixem elas de lado. O bem estar do bebê depende do bem estar desta mamãe que está se formando. Tentem entender os chiliques, aceitar o eventual mau humor e, acima de tudo, entender que algumas vezes não precisamos de dicas ou palpites, precisamos de “abraços quentinhos”, como diria o sábio Olaf, amigo da Ana e da Elsa (Frozen), que a Alice adora.

Bem vindas!

Meu nome é Maria Fernanda, sou obstetra, mãe da Alice e aprendiz da maternidade. Sejam todos bem vindos ao meu blog!

 

Em 2015 eu vivi uma experiência incrível com a minha gestação. Estando do outro lado da cortina, pude entender melhor algumas dúvidas comuns entre as pacientes. Com isso, surgiu a ideia de fazer um blog. Através dele vou tentar fornecer informações que possibilitem uma gestação mais tranquila. Abordarei semanalmente assuntos baseados nas dúvidas do meu dia a dia no consultório e na minha vivência como gestante, puérpera e mãe. Recentemente eu decidi fazer postagens também com relatos de parto, para dividir as experiências vividas pelas mamães, contadas por elas.

Não esqueçam de deixar um comentário sobre o que acharam do blog, dúvidas ou sugestões para os próximos posts. Se acharem que as informações são úteis, compartilhem e sigam nossas páginas no instagram (@blogacaminho) e facebook (fb.com/blogacaminho).

 

Obrigada pela visita!

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