Não demonizem a Episiotomia!


Há muito tempo eu quero escrever sobre este tema. Acho polêmico, fico preocupada com os excessos, tanto contra quanto a favor. Minha preocupação ficou maior depois que uma paciente disse que queria fazer cesariana por não querer, de jeito nenhum, fazer “o corte” (episiotomia) do parto normal. Isso me deixou triste porque não me parece uma escolha justa de cesariana, mas também porque o medo da paciente se justifica, pois alguns profissionais ainda fazem episiotomia de rotina, embora todas as evidência digam que ela deve ser a exceção e não a regra.

Eu tenho visto e lido muita coisa sobre episiotomia, na maioria das vezes colocando-a como vilã e colocando os médicos, quando a fazem, como realizando uma má prática. Acho absurdo “abrir espaço” em todos os partos, sem respeitar a elasticidade do períneo, ou pior, o desejo da paciente de tentar parir sem corte. Porém, em algumas situações ela está indicada.

Episiotomia é um procedimento cirúrgico usado em obstetrícia para aumentar a abertura vaginal com uma incisão no períneo ao final do segundo estágio do parto vaginal (definição da Sociedade Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia). Aqui no Rio Grande do Sul fazemos o procedimento do lado esquerdo - episiotomia médio lateral esquerda - porém isso varia de região para região.

Para a Organização Mundial da Saúde (OMS), ela é feita para acelerar o desprendimento fetal em períodos expulsivos prolongados, sofrimento fetal ou na iminência de lacerações de terceiro e quarto grau. Alguns autores também indicam a episiotomia para evitar compressão prolongada em prematuros, porém, atualmente, não há evidências que suportem está tese. Outra indicação é quando há necessidade de um parto instrumentado, ou seja, uso do fórceps.

Vocês devem estar pensando, tudo bem, indicações claras, mas porque fazer em todo mundo? É exatamente sobre isso que eu quero falar. A maioria não faz, ou não deveria fazer em todo mundo. Como tudo na medicina, a obstetrícia evoluiu muito e muitas coisas, que chegaram para auxiliar os médicos, com o tempo viraram rotinas e hoje, por serem rotinas, ainda fazem parte do dia a dia de alguns serviços, mesmo não sendo mais classificadas como necessárias na grande maioria das pacientes.

Acredito que o grande problema da episiotomia seja este. Por muito tempo ela foi rotina, assim como a ocitocina. Na minha época de residência, eu lembro, tínhamos uma sequência “lógica” nos partos, posicionar a paciente, esperar o bebê descer e abrir episiotomia - e não sou tão velha assim. Hoje em dia sabe-se que a maioria dos bebês nasce sem necessidade desta intervenção e sem nenhum tipo de alteração do períneo ou, quando elas ocorrem, são menos prejudiciais do que o corte em si.

No entanto, em alguns casos, a episiotomia é necessária e ajuda muito no processo do parto. Isso não quer dizer que você precise abrir um corte gigante no períneo da paciente. Na maioria das vezes uma abertura pequena (episiotomia restritiva) facilita o nascimento e, mais importante, evita que grandes lacerações aconteçam e compliquem o parto e a recuperação da paciente.

Muitas opiniões são completamente contrárias a episiotomia. Algumas vezes tenho dificuldade de discutir o assunto nas consultas de pré natal. É importante ficar bem claro que o obstetra, ou a maioria deles, não usa a episiotomia para acelerar um processo fisiológico, para “terminar mais cedo”, mas sim porque ela é necessária. Não estamos ali para “violentar” a paciente. Até porque, como costumo dizer nas consultas, quem abre precisa fechar e eu prefiro não ter que fechar nada, dá menos trabalho.

Em alguns casos o parto está evoluindo absolutamente dentro do normal, porém, no período expulsivo, o coração do bebê começa a desacelerar e o nascimento ainda não é iminente. Nestes casos temos indicação de episiotomia, para acelerar o nascimento, evitando complicações. Sempre lembrando que, quando necessária, a episiotomia é feita com anestesia.

Que fique bem claro, não sou adepta ao corte, prefiro que ele não exista, mas quero que as pacientes enxerguem a episiotomia como um procedimento necessário, em alguns casos, e não como a vilã no parto normal. Assim como tudo na obstetrícia, precisamos ter em mente todas as possibilidades, porque nada é como nos livros, nem sempre conseguimos ter controle das complicações e, por isso, precisamos ter em mente um plano B - episiotomia, cesariana, ocitocina, fórceps… sempre respeitando a necessidade de informar a paciente sobre o procedimento.

Eu amo ser obstetra. Fico realizada com cada nascimento, vivo cada processo de parto com as pacientes e curto um bom trabalho de parto e um parto normal, mas não sou radical. Faço episiotomia, faço indução de parto com ocitocina, ruptura de bolsa, faço cesariana, mas podem ter certeza, eu e a maioria dos meus colegas, não vamos fazer nada desnecessariamente, para acelerar um processo que está indo bem ou para ganhar tempo.

Conversem com os pré natalistas, discutam todas as opções, esgotem as dúvidas, façam um plano de parto e, mais importante, discutam este plano com a doula, o marido, o médico, a família… deixem claro para todos as vontades de vocês. É importante conhecer as vontades da paciente para que possamos conversar sobre elas e avaliar todas as possibilidades.

Porém, não esqueçam, eventualmente precisamos mudar de planos e, nestes casos, precisamos confiar que o médico que está nos atendendo está tomando a conduta correta. Se vocês não ficarem seguras, confiantes, talvez seja melhor trocar de pré natalista. Para termos um bom parto, normal ou cesariana, precisamos confiar na equipe que está nos assistindo.

Bem vindas!

Meu nome é Maria Fernanda, sou obstetra, mãe da Alice e aprendiz da maternidade. Sejam todos bem vindos ao meu blog!

 

Em 2015 eu vivi uma experiência incrível com a minha gestação. Estando do outro lado da cortina, pude entender melhor algumas dúvidas comuns entre as pacientes. Com isso, surgiu a ideia de fazer um blog. Através dele vou tentar fornecer informações que possibilitem uma gestação mais tranquila. Abordarei semanalmente assuntos baseados nas dúvidas do meu dia a dia no consultório e na minha vivência como gestante, puérpera e mãe. Recentemente eu decidi fazer postagens também com relatos de parto, para dividir as experiências vividas pelas mamães, contadas por elas.

Não esqueçam de deixar um comentário sobre o que acharam do blog, dúvidas ou sugestões para os próximos posts. Se acharem que as informações são úteis, compartilhem e sigam nossas páginas no instagram (@blogacaminho) e facebook (fb.com/blogacaminho).

 

Obrigada pela visita!

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