Deu ruim, nasceu sem o manual!

     Depois que eu resolvi escrever um blog, passei a procurar assuntos para colocar nele e algumas coisas que até então me pareciam básicas agora começaram a chamar mais  a minha atenção. O desespero dos primeiros dias com o bebê é muito, muito, mas muito mais comum do que eu me dava conta.

      Você passa nove meses sonhando com o dia em que o bebê vai nascer, como ele vai ser, qual a cor dos olhos, o peso, com quem vai se parecer… aí, inesperadamente, ou não, chega o belo dia. A hora do nascimento é um turbilhão de emoções, seu maior sonho está se tornando realidade, você virou, oficialmente, MÃE. E agora?

    Você até tenta se preparar física e emocionalmente para este momento, tenta controlar a ansiedade, arruma cabelo, se der, faz maquiagem, se der, chama a família, se der tempo, e vai para o hospital. A mala já está pronta a séculos, todo mundo está eufórico, loucos para conhecer o bebê e você está cheia de expectativas.

     Ele nasceu, de parto ou de cesariana, vem direto para o teu colo, choradeira, felicidade absoluta. No inicio a pediatra ajuda, as técnicas de enfermagem ajudam, aí você fica um pouco cansada, o bebê vai fazer uma primeira avaliação e você vai para a recuperação. Aí ele volta limpinho, cheirosinho, roupa nova, uma delícia de pacotinho. Hora de mamar. Aqui começa a cair a ficha.

     Já no primeiro dia de internação, quando a paciente tem alta do centro obstétrico para o alojamento conjunto os cuidados com o bebê passam a ser responsabilidade da mãe e do pai. Algumas nunca trocaram uma fralda, mas é tudo com vocês. Como diria minha avó, “agora é que a porca torce o rabo”.

     Parece muito fácil ter um filho, no sentido de cuidados, trocas, amamentação. A teoria é sempre muito bonita, cheia de relatos apaixonados, de histórias bonitas, fotos fantásticas, new born… mas a vida real, o dia a dia em casa, não é tão simples assim. Tenho percebido que muitas mulheres não se preparam, ou não pensam que, quando o bebê nascer, ele depende única e exclusivamente de você, precisa de você e, por bem ou na marra, você precisa dar conta.

   Não estou tentanto apavorar ninguém, nem deixar as mamães e futuras mamães surtadas. É a experiência mais gratificante do mundo, deixa marcas, deixa saudade, mas não é, de jeito nenhum, uma jornada fácil. Muito pelo contrário, ela desafia nossa paciência e nossos limites todos os dias. Precisamos ter um suporte emocional e familiar (seja de sangue ou não) bem estruturado para que possamos superar estes primeiro 40, 60 dias com um mínimo de sanidade mental, que nos permita levar uma vida o mais normal possível.

     Eu costumo dizer, no momento da alta hospitalar, que a vida em casa é um pouco mais difícil do que no Hospital. Lá vocês tem acesso a uma campainha mágica que chama ajuda a qualquer hora do dia e da noite. Em casa a única campainha que vai tocar é a de casa com as visitas, ou então a babá eletrônica. Mesmo com alguém sempre por perto (mãe, sogra, marido, irmã, amiga…) a maior parte do trabalho é sempre da mãe, afinal de contas, o leite é nosso, o cheiro é nosso enfim, as necessidades básicas do bebê são supridas pelo aconchego da mãe.

    É preciso respirar fundo, ser paciente e, principalmente, ter calma. Calma para aprender a ouvir o bebê, ele tem choros diferentes. Calma para entender que nem sempre é fome, nem sempre a fralda está suja e nem sempre é sono. Às vezes ele só quer ficar pertinho ou está, simplesmente, chorando. Você pode chorar também quando bater o desespero. Em algum momento, cedo ou tarde, todas nós choramos um pouco.

    A gestação é um momento mágico, cheio de novidades, expectativas e, mesmo quando tudo sai como planejado, como se fosse um filme seguindo um roteiro pré definido, uma hora ela termina e começa um verdadeiro “reality show”, sem roteiro e, pior, sem plano pronto, sem um caminho a seguir. Cada bebê tem seu tempo de mamar, sua tolerância ao frio, ao calor, ao barulho, suas necessidades de colo, de sono… ou seja, você precisa de algum tempo para se adaptar a isso e, principalmente, precisa de paciência para aceitar este tempo.

      Várias vezes depois que a Alice nasceu eu fiquei pensando “cadê o manual”. Deveríamos ter um manual. Nem precisava ser muito detalhado, só coisas básicas, noções básicas tipo “como evitar o pânico”. Sim, eu entrei em pânico e não foi uma, foram muitas vezes. É bem complicado se dar conta que você dorme gestante e acorda mãe e é tudo contigo. Sim, eu tive apoio, MUITO apoio, mas a licença maternidade era minha, quem passava a maior parte do tempo com ela era eu.

       Outra coisa importante, embora o bebê tenha necessidades que só podem ser supridas pela mãe, como mamar, o pai também faz parte do processo. Ouço muitas pacientes dizendo “meu marido ajuda muito”. Sim, também é responsabilidade dele cuidar do bebê, que bom que ele faz isso. Você precisa deste suporte. Algumas vezes o bebê está trocado, alimentado, chorando e você precisa de 15 minutinhos pra tomar um banho “demorado” e lavar o cabelo. Não hesite, entregue a criança para o papai e deixe que ele também aprenda a lidar com o serumaninho.

       Hoje em dia eu consigo perceber melhor as queixas da mãe e deixá-las mais tranquilas, pois eu já passei por isso. Mesmo assim, como eu disse, cada bebê tem seu tempo, suas manias, seu jeito, precisamos dar tempo para que isso se adapte e a cumplicidade entre mãe e bebê vá se formando. As mamães precisam ter paciência, pedir ajuda para os mais experientes, mas também se dar um tempo para que a sua experiência chegue. Nem demora tanto assim.

      Os primeiros 40, 60… dias são um pouco mais difíceis, mas eles passam. O aleitamento materno, ou com mamadeira aos poucos se organiza. Você começa a ouvir melhor o bebê e saber o que cada chorinho quer dizer. Você começa a ver o que é necessidade e quando está surgindo uma mania, quando ele está mesmo com fome ou só quer um colinho, quando tem cólica e quando tem sono, quando está cansado e precisa de berço ou então de um carinho.

      Cedo ou tarde, assim como você dorme gestante e acorda mãe, um belo dia você acorda e percebe que as coisas estão mais fáceis, você já consegue driblar o xixi que sai tão logo você abre a fralda, já não fica toda vomitada a cada mamada, já dá banho sem molhar a casa toda. Você percebe que ele não é tão frágil como você imaginava no primeiro dia e as coisas vão ficando bem mais tranquilas. A partir deste momento você deveria ganhar uma medalha imaginária “mãe da vez” e poderia dar consultoria na porta da maternidade, para aquelas que estão tendo alta.

     Então mamães e futuras mamães, respeitem esse tempo de adaptação. Tente contar até 10, ou até 1000, quando tudo parece estar de ponta cabeça. As coisas, na imensa maioria das vezes, acabam se ajeitando. Vocês vão conhecer os filhos de vocês melhor do que ninguém. As dificuldades da amamentação, de lidar com os pontos da cesárea, ou do parto, o sangramento, o inchaço, o sono, tudo isso passa e você vai ter saudade, eu juro.

     É incrível a cumplicidade entre mãe e bebê. A capacidade que um tem de entender o outro. Quando esta relação se estabelece, aquela mulher maravilha que começou a surgir no momento em que a gestação foi descoberta está pronta. Ninguém vai entender o bebê, protegê-lo ou cuidar dele melhor do que você. Virar mãe é muito especial, mas precisamos ter paciência para entender isso. Respeitar nossos limites e aceitar que não nascemos sabendo. Entrar de cabeça na viagem da maternidade. A jornada vai ser longa e nem sempre será fácil, mas ela é especial e VALE MUITO A PENA. Se joguem!!!!

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Bem vindas!

Meu nome é Maria Fernanda, sou obstetra, mãe da Alice e aprendiz da maternidade. Sejam todos bem vindos ao meu blog!

 

Em 2015 eu vivi uma experiência incrível com a minha gestação. Estando do outro lado da cortina, pude entender melhor algumas dúvidas comuns entre as pacientes. Com isso, surgiu a ideia de fazer um blog. Através dele vou tentar fornecer informações que possibilitem uma gestação mais tranquila. Abordarei semanalmente assuntos baseados nas dúvidas do meu dia a dia no consultório e na minha vivência como gestante, puérpera e mãe. Recentemente eu decidi fazer postagens também com relatos de parto, para dividir as experiências vividas pelas mamães, contadas por elas.

Não esqueçam de deixar um comentário sobre o que acharam do blog, dúvidas ou sugestões para os próximos posts. Se acharem que as informações são úteis, compartilhem e sigam nossas páginas no instagram (@blogacaminho) e facebook (fb.com/blogacaminho).

 

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