O que é ser Humanizada?

      Hoje em dia está muito na moda o termo “Humanização do Parto”. Os Hospitais estão mudando normas de conduta para se adequar a este processo, as pacientes estão falando mais e pesquisando mais sobre parto e cesariana para entender melhor este processo e os médicos, por bem ou por mal, precisam absorver este conceito para seguirem exercendo a obstetrícia de uma forma mais “humana”, com o perdão da redundância.

      Em post anteriores eu já falei sobre parto normal e sobre cesariana humanizada e não quero ser repetitiva. O post de hoje é sobre o processo da humanização, sobre um nascimento mais humano. Isso não diz respeito somente ao momento do nascimento, mas também a tudo que antecedeu este processo, desde quando o casal decidiu ter um filho.

     Às vezes eu me questiono: “será que sou mesmo humanizada?”. Revejo minhas condutas, repasso alguns trabalhos de parto, as cesarianas eletivas, as urgências, comparo minhas escolhas com as de alguns colegas. Com o tempo acabei entendendo que não é uma questão de ser ou não humanizada, são condutas diferentes, formas diferentes de atendimento, mas que acabam servindo para um mesmo fim. O bem estar do binômio mãe-bebê é sempre o mais importante.

   Depois de muito pensar, revisar mil vezes as minhas condutas eu entendi que a humanização do parto tem muito mais a ver com a forma com que você se relaciona com a paciente. Eu preciso respeitar seus sonhos de parto, mas a romantização do processo não é minha. Cabe ao pré natalista ter o entendimento teórico do processo, usar a medicina e seus preceitos para que o desfecho seja favorável ou, no mínimo, desprender todos os esforços para que isso aconteça.

     Quanto mais partos eu faço, mais eu percebo que algumas pacientes querem muito viver essa experiência, preparam-se, na teoria, durante 9 meses para chegar a este momento, mas quando ele chega e a tempestade das contrações começa, nem todas estão, de fato, prontas para encarar o processo.

    Temos 9 meses para tentar dar uma ideia para a paciente de como será o parto. Obviamente é impossível conseguir explicar exatamente como ele vai ser, mensurar a dor, as reações, as sensações, mas podemos sim dar a ela um suporte emocional para passar pelo trabalho de parto da melhor forma possível. Ou então, deixá-las à vontade para desistir, caso tenham atingido seus limites.

     Isso pra mim é humanização do nascimento. Conhecer a paciente, dividir com ela as angústias, as dificuldades, as alegrias dos 9 meses que antecedem o parto. Orientá-las de uma forma tranquila, mas sem romantizar o processo para que elas estejam com um suporte emocional adequado para encarar um trabalho de parto e, principalmente, para ficarem seguras se decidirem desistir.

      No post sobre cesariana humanizada eu falei muito sobre minha frustração quando uma cesariana precisa ser indicada e isso gera um sofrimento tão grande para a paciente que ela acaba não vivendo a emoção do momento. Pois então, outro dia eu li um texto lindo de uma narrativa de trabalho de parto e uma frase me chamou muito a atenção “eu engravidei para ter um filho e não para ter um parto normal”. Talvez esta seja a essência da humanização.

       Não existe parto a qualquer custo, não existe ultrapassar os limites da paciente para atingir um objetivo pré determinado. Cabe ao pré natalista, que conviveu com a paciente durante todo o processo de pré natal entender que ela, mesmo querendo muito ter um parto, tem um limite e nós precisamos estar prontos para determinar que ele chegou, para dar suporte emocional se ela resolver desistir. Não podemos deixar a paciente ou o bebê entrarem em sofrimento por teimosia.

      Canso de ver pacientes que querem muito um parto normal, escolhem uma doula, tem todo o suporte familiar, mas a bolsa rompe antes do tempo, as contrações demoram a vir, é necessária uma indução ou uma hospitalização precoce e o romantismo do processo cai por terra. Ou então, as contrações vem com tudo, força máxima, com uma dilatação muito inicial e a paciente entra em pânico pensando no tempo que vai levar até o nascimento propriamente dito.

    Acredito que, neste momento, precisamos assumir o controle da situação, não para indicar uma cesariana ou para dar um jeito de abreviar o processo, mas sim para entendermos que toda paciente tem um limite. Precisamos deixar ela segura para seguir em frente, para aceitar que o relógio nem sempre é um aliado do trabalho de parto e a paciência é a chave para que tudo dê certo.

     Além disso, quem está acompanhando o processo de trabalho de parto precisa oferecer a paciente possibilidades de alívio da dor, farmacológicas ou não, exercícios que favoreçam o processo de parto, mostrar que ficar deitada nem sempre é a melhor escolha e, principalmente, deixá-la segura para seguir, ou para desistir, caso está seja a opção.

     Não cabe a mim, nem a qualquer outra pessoa que acompanhe o pré natal ou somente o trabalho de parto determinar quanta dor uma paciente é capaz de aguentar. Porém é nossa responsabilidade deixar claro que pode demorar mais do que o esperado e temos formas de facilitar este processo, como a analgesia de parto, os banho de chuveiro, os exercícios na bola; ou então que já está quase na hora e ela só precisa de mais um pouco de paciência.

    Intercorrências obstétricas acontecem, mas é inadmissível que elas sejam decorrentes de má prática. A paciente pode não entender ou não aceitar seus limites, mas nós precisamos mostrar sempre o melhor caminho, sem julgamentos prévios.

     Nunca deixem que a via de parto interfira na magia de ter um filho. Mesmo que você se prepare a vida toda para um parto normal, às vezes ele não acontece e a emoção de virar mãe não pode ser apagada por uma cesariana de urgência. Da mesma forma, algumas vezes você tem pânico de parto normal, mas chega no hospital com uma dilatação bem avançada, em franco trabalho de parto e uma analgesia pode aliviar a dor e tornar o parto possível, não feche esta porta.

     Em obstetrícia é muito importante termos um plano B, C ou D. Não menos importante é discutir estes planos durante o pré natal. Algumas decisões não podem ser adiadas, mas também não podem pegar a paciente de surpresa. Nem sempre as coisas acontecem exatamente como planejado.

 

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Bem vindas!

Meu nome é Maria Fernanda, sou obstetra, mãe da Alice e aprendiz da maternidade. Sejam todos bem vindos ao meu blog!

 

Em 2015 eu vivi uma experiência incrível com a minha gestação. Estando do outro lado da cortina, pude entender melhor algumas dúvidas comuns entre as pacientes. Com isso, surgiu a ideia de fazer um blog. Através dele vou tentar fornecer informações que possibilitem uma gestação mais tranquila. Abordarei semanalmente assuntos baseados nas dúvidas do meu dia a dia no consultório e na minha vivência como gestante, puérpera e mãe. Recentemente eu decidi fazer postagens também com relatos de parto, para dividir as experiências vividas pelas mamães, contadas por elas.

Não esqueçam de deixar um comentário sobre o que acharam do blog, dúvidas ou sugestões para os próximos posts. Se acharem que as informações são úteis, compartilhem e sigam nossas páginas no instagram (@blogacaminho) e facebook (fb.com/blogacaminho).

 

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