Aborto espontâneo!

    O post desta semana vai falar de um tema difícil, mas muito importante. Nos últimos tempos, tenho visto muitas pacientes passarem por esta situação que, embora não seja normal, acontece com relativa frequência e deixa marcas que precisam ser cuidadas, para que possam ser superadas.

     Diagnosticar uma gestação nos dias de hoje ficou muito fácil. Os testes de farmácia são bastante seguros, os testes de laboratório muito acessíveis, assim como as ecografias, e os atrasos são percebidos muito cedo. Enfim, nos damos conta da gestação muito mais cedo do que antigamente e, algumas vezes, o que passava por uma menstruação atrasada hoje já tem diagnóstico de aborto espontâneo.

   As pacientes nunca estão preparadas para enfrentar uma perda gestacional, independente de quando ela ocorra. Não estou aqui para julgar quem sente mais ou menos dor, mas acredito que as perdas iniciais, mesmo em gestações muito desejadas, acabam sendo menos difíceis de aceitar e deixam marcas um pouco menos doloridas do que aquelas que ocorrem no segundo e terceiro trimestres.

      Mesmo assim, o casal fica arrasado, precisam de tempo para processar a perda e precisam que a família e o pré natalista tenham uma sensibilidade/cuidado especial, para dar suporte neste momento tão difícil. É preciso ter muito jeito para lidar com estas situações. Para os pré natalistas elas acabam sendo um pouco mais rotineiras, mas não podem ser tratadas como banais. Para a paciente é um momento de muita dor, que precisa ser resolvido da melhor forma possível, respeitando as vontades do casal e também seu tempo para processar a notícia ruim.

     Aborto espontâneo, como o nome diz, é espontâneo. Temos pouco, ou quase nada, que possa ser feito para que ele não ocorra. Aproximadamente 50% dos casos tem uma malformação cromossômica como causa e esta não pode ser prevenida ou mudada. Este fator é responsável pela imensa maioria das perdas entre 8 e 11 semanas. Idade materna avançada, tabagismo e aborto prévio são alguns dos outros fatores de risco mais bem documentados. O risco diminui muito quando a paciente já tem uma gestação viável prévia.

     Tudo bem, todos estes dados são importantes, mas para a paciente que passa por isso as estatísticas pouco importam, ela teve um perda e isso precisa ser levado em conta e tratado com respeito e com muito, mas muito carinho e cuidado.

     Há muito tempo eu percebi que o vínculo que se estabelece com a paciente que tem uma perda gestacional é diferente. Uma das minhas primeiras pacientes de pré natal do consultório foi um aborto prévio, que eu atendi na emergência (não muito adequada para criar vínculo), mas que se sentiu tão bem cuidada e acolhida pela equipe do plantão naquele momento que na gestação seguinte resolveu me procurar. Fico absolutamente feliz com isso, faz nosso trabalho valer a pena.

     Pois então, vamos falar de cuidado. Quando você descobre a gestação, planejada ou não, é inundada por um misto de sentimentos que fazem nossa vida virar de ponta cabeça. Salvo aquelas pacientes mais neuróticas, as da área da saúde especialmente, vocês raramente pensam que pode dar errado, mas às vezes dá e aí começa o sofrimento.

      A paciente não se prepara, óbvio, para este momento, mas a equipe que assiste o pré natal ou que está de plantão na emergência precisa estar preparada. Especialmente para não passar uma ideia de “ah, isso acontece”. De jeito nenhum esse é o tratamento esperado pelo casal que tem um aborto.

       Vou me ater às perdas de primeiro trimestre, ou seja, até as 12/13 semanas, que são as mais comuns e, na maioria das vezes não tem uma causa definida.

     Algumas patologias prévias podem aumentar o risco de perdas espontâneas, sendo importante que elas estejam bem controladas antes de tentar engravidar. Por exemplo, mulheres com diabete prévia, alterações de tireoide, trombofilias, extremos de peso, alterações estruturais do útero, precisam de um aconselhamento pré gestacional e um controle multidisciplinar para que a gestação tenha maiores chances de evoluir da melhor maneira possível.

    Especialmente naquelas mulheres que já tiveram um perda ou têm conhecidas que passaram por isso, há um excesso de preocupação quanto a necessidade de repouso, abstinência sexual ou uso de progesterona via vaginal. Todas estas medidas podem e devem ser tomadas em casos de risco aumentado de perda ou quando há sangramento vaginal ou alteração comprovada do colo uterino, porém, na maioria das vezes, elas não alteram o desfecho, independente dos cuidados da equipe que acompanha o pré natal e da própria gestante.

     Pacientes com sangramento de primeiro trimestre, ou cólicas muito intensas devem procurar uma emergência obstétrica o quanto antes. É importante que seja feita uma avaliação física detalhada, com toque vaginal e exame ginecológico para verificar se há modificações de colo uterino, e também uma ecografia para avaliar a implantação do saco gestacional e viabilidade do concepto.

       Em casos confirmados de perdas, com menos de 14 semanas, existem algumas opções de tratamento que podem ser discutidas com as pacientes e dependem muito do grau de ansiedade de cada uma. Quando o diagnóstico se dá por um achado de ecografia, ou seja, a paciente é assintomática, não há necessidade imediata de intervenção cirúrgica ou internação hospitalar. Bem como naquelas que têm algum tipo de sangramento ou dor pélvica, sem repercussão hemodinâmica, mas o colo uterino ainda está fechado. Nestes casos podemos optar por um tratamento expectante. É possível aguardar que ocorra um esvaziamento uterino espontâneo até por 4 semanas, mas confesso que a maioria das pacientes fica muito ansiosa com esta conduta e não consegue esperar por tanto tempo.

      As condutas médicas quando há um risco maior de perda ou quando há diagnóstico de gestação interrompida dependem muito da prática diária de cada serviço de emergência ou da experiência do pré natalista. Além disso, as escolhas da paciente devem ser levadas em conta. Por exemplo, algumas aceitam numa boa o tratamento expectante, porém outras optam pelo esvaziamento uterino o quanto antes.

     Depois de passar por esta experiência dolorosa, algumas pacientes precisam de um tempo para tentar de novo, outras preferem tentar tão logo seja possível. É importante aconselhar todas quanto aos cuidados, fazer controle de patologias prévias, caso elas existam e, principalmente, deixar claro que é completamente possível ter uma gestação saudável depois de uma perda espontânea.

     Conheço pacientes que enfrentaram perdas espontâneas de primeiro trimestre, as vezes mais do que uma, e agora estão com gestações em curso, saudáveis ou com seus bebezinhos no colo. Para que isso aconteça é importante ter uma rotina regular de acompanhamento ginecológico e obstétrico e também multidisciplinar, quando existem outras patologias associadas.

    Além disso, não desistam do sonho de se tornarem mães. Ter uma perda aumenta um pouco a ansiedade do primeiro trimestre, mas não pode, de jeito nenhum, estragar o sonho da maternidade.

 

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Bem vindas!

Meu nome é Maria Fernanda, sou obstetra, mãe da Alice e aprendiz da maternidade. Sejam todos bem vindos ao meu blog!

 

Em 2015 eu vivi uma experiência incrível com a minha gestação. Estando do outro lado da cortina, pude entender melhor algumas dúvidas comuns entre as pacientes. Com isso, surgiu a ideia de fazer um blog. Através dele vou tentar fornecer informações que possibilitem uma gestação mais tranquila. Abordarei semanalmente assuntos baseados nas dúvidas do meu dia a dia no consultório e na minha vivência como gestante, puérpera e mãe. Recentemente eu decidi fazer postagens também com relatos de parto, para dividir as experiências vividas pelas mamães, contadas por elas.

Não esqueçam de deixar um comentário sobre o que acharam do blog, dúvidas ou sugestões para os próximos posts. Se acharem que as informações são úteis, compartilhem e sigam nossas páginas no instagram (@blogacaminho) e facebook (fb.com/blogacaminho).

 

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