Depressão não é frescura!


Cada vez mais este assunto me preocupa. Infelizmente, ainda vivemos numa sociedade na qual algumas pessoas consideram sintomas depressivos como sendo uma “frescura”. Não são, de jeito nenhum, precisam ser tratados e acompanhados, mas, antes disso, precisam ser percebidos, levados em consideração.

É incrível a capacidade que o ser humano tem de disfarçar sentimentos. Podemos estar num enterro, morrendo de vontade de rir, mas choramos, estar num circo, brigadas com o namorado, mas sorrimos. Às vezes estamos trabalhando com a maior crise de enxaqueca ou de cólica, mas seguramos no semblante, ninguém nota… e também podemos estar no fundo do poço, mas esboçamos um sorriso, evitamos as queixas e, de repente, explodimos. Isso pode ser bem desastroso.

Na gestação e puerpério o risco aumenta, especialmente em pacientes predispostas. Algumas delas desenvolvem sintomas depressivos mais graves e são mais fáceis de detectar, porém o “blues puerperal”, uma modalidade um pouco mais leve, com sintomas auto limitados pode passar despercebido. Ambas podem trazer complicações graves, por isso a paciente e o bebê e precisam de atenção especial.

Ainda temos aquelas pacientes que não se caracterizam como uma depressão em si, mais ou menos leve, mas estão chorosas, com bastante dificuldade de lidar com as mudanças, às vezes com o segundo ou terceiro filho, vendo-se num mundo de ponta cabeça. Elas também precisam de cuidados.

Na verdade toda puérpera precisa de atenção especial. Mamães e futuras mamães precisam de cuidado. Isto não quer dizer que ela se torne dependente de ajuda em tempo integral. É importante respeitar o espaço e a forma pela qual cada paciente enfrenta este momento, mas não podemos deixá-la de lado ou, pior, focar somente no bebê e esquecer da mãe.

Algumas vezes, quase sempre, há uma mudança de humor decorrente das alterações hormonais. Elas podem acontecer desde cedo na gestação, durante, no final, ou somente no puerpério. Em geral, quem mais sente/sofre com estas mudanças são as pessoas mais próximas (pobres maridos). São estas pessoas que precisam estar atentas às mudanças. Tentar perceber quando elas são normais e quando se tornam exageradas, patológicas.

É normal que as mulheres percam um pouco a vaidade na gestação, deixamos a dieta um pouco de lado, ficamos com preguiça de fazer exercícios, algumas vezes desistimos da maquiagem e dos cuidados com a pele. A depilação fica mais dolorida, o cabelo pode esperar mais um pouco, as unhas não caem se não forem feitas e a vida continua, tudo bem, sem problemas, mas existe um limite para este “descuidado”. Existe uma linha muito tênue entre o normal e o patológico.

Nos primeiros dias de pós parto, às vezes, os cuidados também ficam de lado. Acabamos prestando muito mais atenção no bebê, que toma todo o nosso tempo e esquecemos de lavar o rosto, pentear o cabelo, tomamos banho voando, dormimos quando dá e se der, mas tudo tem um limite.

Mudanças muito bruscas de temperamento, de cuidados pessoais, pacientes que ficam muito desleixadas, consigo e, às vezes, também com o bebê, podem estar entrando num quadro de depressão pós parto. Mais leve, ou mais grave, é importante termos um diagnóstico precoce para que possamos tratar os sintomas o quanto antes.

É muito importante colocar a depressão entre as hipóteses diagnósticas quando nos deparamos com está repentina “falta de cuidados”. Pode ser difícil perceber sintomas depressivos, especialmente quando você não faz este tipo de diagnóstico todos os dias,. Precisamos pensar mais nisso, levantar esta hipótese e avaliar bem a história pregressa das pacientes para que possamos identificar aquelas com maior risco.

Quando a gestação não é planejada, ou é planejada mas num contexto desfavorável, num relacionamento nem tão “firme”, emocionalmente falando, fica mais fácil perceber que a paciente está com problemas. No entanto, os sintomas depressivos ocorrem também naquelas gestantes ou nas puérperas cujo maior sonho era ser mãe, com uma família perfeita, um marido perfeito, uma vida dos sonhos.

Como eu já disse várias vezes, algumas pacientes não estão prontas para o turbilhão de emoções que envolvem a gestação e, menos ainda para as cansativas rotinas do pós parto. Os sintomas de primeiro trimestre algumas vezes tornam a gestação um “sofrimento” e, quando eles se prolongam, podemos estar diante de uma paciente que não tem prazer algum em estar grávida, que associa, mesmo que inconscientemente, o processo da gestação, com um processo físico, muito, mas muito complicado.

Do mesmo modo, após a alta da maternidade, amamentando exclusivamente no peito ou não, as coisas podem se tornar bem complicadas, com dor, “pouco leite”, medo de não ser suficiente, sono acumulado, choro sem motivo, ou com motivo. Os primeiros dias com o bebê são sempre mais complicados.

Algumas pacientes ficam muito sensíveis nesta fase. Na imensa maioria das vezes não são sintomas depressivos, mas elas ficam chorosas, um pouco decepcionadas consigo mesmas por acharem que dariam conta, que seria mais fácil. É preciso entender que nunca é fácil. Pequenas mudanças de rotina já geram turbulência, imagina introduzir uma criança nas nossas vidas, uma mudança imensa, não tem como não passar por este período de adaptação sem sentir nada.

As vezes, mães de segundo, terceiro filho acabam ficando mais desesperadas. Primeiro porque elas sempre acham que o segundo será mais fácil e as vezes ter dois, dependendo da idade das crianças, torna tudo mais tenso; segundo porque o filho mais velho algumas vezes tem uma pequena regressão de comportamento com a chegada do irmão mais novo e é a mãe que precisa contornar esta situação.

O pré natalista deve estar atento a estas mudanças de humor. Algumas vezes é preciso medicação a atendimento específico com Psicologo e Psiquiatra, mas em outras uma boa conversa e um abraço apertado já tornam a vida mais fácil e permitem que a gestante ou puérpera fique mais tranquila, aceite que as dificuldades são passageiras.

Tudo bem, falei muito, muitas coisas, mas o mais importante é prestar atenção às mudanças bruscas de comportamento, entender que o puerpério é complexo, mas não gera sofrimento. Se você está se sentindo assim talvez seja o momento de pedir ajuda.

Bem vindas!

Meu nome é Maria Fernanda, sou obstetra, mãe da Alice e aprendiz da maternidade. Sejam todos bem vindos ao meu blog!

 

Em 2015 eu vivi uma experiência incrível com a minha gestação. Estando do outro lado da cortina, pude entender melhor algumas dúvidas comuns entre as pacientes. Com isso, surgiu a ideia de fazer um blog. Através dele vou tentar fornecer informações que possibilitem uma gestação mais tranquila. Abordarei semanalmente assuntos baseados nas dúvidas do meu dia a dia no consultório e na minha vivência como gestante, puérpera e mãe. Recentemente eu decidi fazer postagens também com relatos de parto, para dividir as experiências vividas pelas mamães, contadas por elas.

Não esqueçam de deixar um comentário sobre o que acharam do blog, dúvidas ou sugestões para os próximos posts. Se acharem que as informações são úteis, compartilhem e sigam nossas páginas no instagram (@blogacaminho) e facebook (fb.com/blogacaminho).

 

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