Não quero mais!

     Muitas vezes ouço as pessoas dizendo que os médicos forçam as pacientes para fazer cesariana. Sim, algumas vezes não deixamos bem claras as nossas intenções no início do pré natal, ou então esquecemos que é muito importante discutir com a paciente as vias de parto durante os 9 meses, ou ainda que existem situações onde há necessidade de trocar esta via durante o processo de nascer.

      Resolvi escrever sobre isso, pois na última semana, em dois partos diferentes, eu ouvi a mesma frase: porque fui me meter nisso? Pois então, na hora que a dor aperta, desistir parece mesmo ser a melhor saída. Na imensa maioria das vezes, não é.

    O parto normal não é e nunca foi fácil. Acredito que algumas pacientes acabam passando por esta experiência de uma forma mais rápida, mas não vai ser fácil mesmo assim. Cedo ou tarde a dor atinge seu ponto máximo. Um trabalho de parto é sempre intenso, muito intenso. Vocês precisam estar preparadas emocionalmente para isso. Em geral, quando as contrações atingem seu ápice, a chance de desistir fica proporcional ao aumento da dor.

    É nesse momento que precisamos usar do nosso “poder de convencimento” para tentar tranquilizar a paciente, deixá-la à vontade para mudar de ideia, mas não deixar que isso aconteça somente por medo ou por dor. Às vezes a paciente tem 7/8 cm e a dor está insuportável, de verdade, mas não é hora de desistir, de jeito nenhum. Em geral estamos “quase lá”, precisamos achar meios de aliviar um pouco a dor e, principalmente, a angústia, para que o trabalho de parto siga em frente.

    Talvez seja a hora de entrar para o chuveiro, ou sair dele, ficar na bola, ou então deitar um pouco, avaliar a possibilidade de analgesia de parto, ou então de alguma medicação que diminua a dor. Porém, se estiver tudo bem com o binômio mãe/bebê, não é o momento de desistir. Até porque, como costumo dizer, já passamos da metade do caminho e estamos entrando na parte mais “fácil” do trabalho de parto.

     Precisamos lembrar a gestante que ela tinha um foco no início (ou durante) o pré natal e agora fica difícil avaliar de uma forma clara o que você realmente quer. É nosso papel fazer a paciente entender que as coisas estão caminhando para o nascimento, que ela está indo bem e, principalmente, que podemos ajudar a aliviar esta dor. Deixando bem claro que mudar de via é um direito dela, mas talvez não seja a melhor escolha naquele momento.

   Outro dia aconteceu exatamente isso. Paciente com cesariana prévia, dilatação completa, dor no auge e exausta. Quando ela me viu já foi logo dizendo - não aguento mais, porque fui me meter nisso? A presença da doula em sala foi fundamental. Ela tranquilizou a paciente, lembrou de todas as conversas durante o pré natal, suas escolhas, as orientações quanto ao que estava acontecendo e, aos poucos, ela foi se acalmando, entendendo melhor o processo, focando na força e no nascimento e a criança chegou, linda, gordinha, cheia de saúde, de parto normal, como a paciente queria desde o início.

   O familiar que vai acompanhar o parto pode ser o responsável por essa tentativa de tranquilizar a paciente. Podemos exercitar isso durante o pré natal, conversando com este familiar, explicando o que pode acontecer e como podemos lidar com cada uma das situações. Porém, às vezes, o familiar acaba se “contaminando” com o desespero da paciente. Super normal você sentir pena de alguém que você ama. Aí entra a nossa parte de orientar os dois para que o processo siga em frente. Sempre lembrando que trabalho de parto gera uma vida e não o sofrimento.

     Lógico, aliado a todo este trabalho de suporte emocional precisamos de toda uma equipe médica e de enfermagem avaliando a paciente e o bebê o tempo todo e garantindo que o processo está transcorrendo com segurança, que o parto é mesmo a melhor via para o nascimento. 


 

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Bem vindas!

Meu nome é Maria Fernanda, sou obstetra, mãe da Alice e aprendiz da maternidade. Sejam todos bem vindos ao meu blog!

 

Em 2015 eu vivi uma experiência incrível com a minha gestação. Estando do outro lado da cortina, pude entender melhor algumas dúvidas comuns entre as pacientes. Com isso, surgiu a ideia de fazer um blog. Através dele vou tentar fornecer informações que possibilitem uma gestação mais tranquila. Abordarei semanalmente assuntos baseados nas dúvidas do meu dia a dia no consultório e na minha vivência como gestante, puérpera e mãe. Recentemente eu decidi fazer postagens também com relatos de parto, para dividir as experiências vividas pelas mamães, contadas por elas.

Não esqueçam de deixar um comentário sobre o que acharam do blog, dúvidas ou sugestões para os próximos posts. Se acharem que as informações são úteis, compartilhem e sigam nossas páginas no instagram (@blogacaminho) e facebook (fb.com/blogacaminho).

 

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