Um plano B ... ou o plano ideal?

     O post de hoje é uma complementação daquele post no qual eu falei sobre “não parir com seu médico assistente”. Pensei em fazer tudo em um só, mas achei extenso e massante de ler. Aqui no Brasil as pacientes tem pânico do tal do plantão obstétrico. Temos uma cultura muito forte do médico assistente. Não deveria ser assim. Um plano “B” facilitaria as coisas.

     Na minha opinião, uma mudança cultural com relação a isto traria benefícios enormes para a obstetrícia no nosso país, especialmente no que se refere às taxas de cesariana e partos normais. Ficaria muito mais fácil ter um parto normal, humanizado, se tivéssemos disponível centros obstétricos com equipe completa, que absorvesse a demanda dos convênios. Além disso, as pacientes precisam dissociar o pré natal do parto ou, pelo menos, pensar nessa possibilidade com menos pânico.

    Hoje em dia, é uma maratona achar um Obstetra disponível na sua data provável de parto, disposto a fazer parto normal, com paciência e humanização, sem cobrar disponibilidade, nos moldes que seu plano de saúde oferece (leia-se paga).

     Por outro lado, quando você quer uma cesariana, tudo fica mais fácil. Tudo isso não só corrobora com os aumentos nas taxas de cesariana, mas também aumenta as chances das pacientes procurarem meios “alternativos” para terem seu tão sonhado parto normal, como os partos domiciliares.

     Muitas pacientes e ativistas do parto normal, como eu, usam alguns países de primeiro mundo, como Estados Unidos, Inglaterra, França, Itália, Canadá, para exemplificar os benefícios do parto. O que, às vezes, nós esquecemos de explicar, é que nestes países e na maioria dos lugares onde a cultura do parto normal está bem estabelecida, a maioria dos partos são realizados nas emergências obstétricas, não pelo médico assistente.

    Sim, a cultura do pré natalista responsável pelo nascimento de todos os bebês das suas pacientes é muito característica do nosso país. Já temos algumas cidades direcionando os nascimentos para a maternidade, sem a participação do pré natalista, mas a imensa maioria dos casos não é assim.

     Por exemplo, minha irmã mora no Canadá. Na primeira consulta de rotinas, com seu Médico de Família, por ela ser mulher, em idade fértil, já recebeu orientações sobre como funciona o pré natal e parto - um obstetra, médico de família ou enfermeira obstétrica faz todo o atendimento durante os 9 meses de gestação, mas qualquer intercorrência ou então na hora de nascer, ela se dirige para a emergência obstétrica da sua referência e quem presta atendimento é o plantão obstétrico.

     Alguns países inclusive dividem as gestantes em categorias de risco, e aquelas com gestação de risco habitual (menor) são manejadas por uma equipe de enfermeiras obstétricas, responsáveis por todos os momentos - admissão obstétrica, trabalho de parto, parto e pós parto. Inclusive com liberação para usar medicações necessárias para indução de parto e também para analgesia. O médico só será chamado em caso de complicações, necessidade de instrumentação do parto (fórceps) ou de cesariana.

      Acredito que este seria o modelo ideal de atendimento. Com toda certeza os plantões obstétricos tem um índice menor de cesariana, com maiores possibilidades de investir em induções de parto mais demoradas, com mais tempo e paciência para fazê-las.

     É um assunto chato, mas a remuneração médica e hospitalar no que se refere aos procedimentos obstétricos, especialmente ao parto normal - que pode levar um dia todo - muitas vezes não compensam. Então, muitos médicos decidem não passar por isso e fazem somente a tal da cesariana. Está certo? Não, de jeito nenhum. Porém precisamos levar em conta que a maioria dos planos de saúde não paga pelas horas de trabalho de parto e, aqueles que pagam, em geral limitam o tempo de 6h, ou seja, se não nascer neste período, o médico segue “de plantão” sem remuneração. Parece mesmo mais fácil marcar uma cesariana, com um tempo pré definido, sem precisar desmarcar agenda de consultório nem sair de casa no meio da noite.

     Outra coisa, quando contratamos o plano de saúde, com cobertura para o parto ou a cesariana, ele nos oferece dois serviços: consultas de pré natal, com todos os exames necessários e a internação obstétrica no dia do nascimento. No contrato não está definido que o médico que faz o pré natal deve, obrigatoriamente, ser o responsável pelo parto.

     Aqui no Rio Grande do Sul temos uma cultura muito forte do pré natalista responsável pelo parto, o que eu acho ótimo. Confesso que, se eu precisasse escolher entre o pré natal e os partos, eu ficaria com os partos. Não me vejo sendo médica de consultório em tempo integral. Além disso, criamos vínculo com as pacientes, é muito legal fazer parte do maior momento de todo o pré natal.

     No entanto, não é nada fácil. Somos obrigadas a colocar nossa profissão acima de muitas outras situações profissionais e familiares. Especialmente quem se dispõe a fazer parto normal, precisa estar ciente de que a vida não será fácil.

    Então, resolvi escrever sobre isso para que vocês tentem entender um pouco os motivos dos nossos índices de cesariana serem tão altos. Não estou justificando, não acho certo, mas não podemos nos comparar com os países de primeiro mundo, pois nosso sistema não oferece as condições de saúde que eles oferecem. Os plantões obstétricos assistencialistas talvez fossem uma boa solução para este problema, mas para isso precisamos de uma mudança cultural e estrutural bem importante.

    Ter um parto normal na Inglaterra ou no Canadá é o desfecho óbvio de uma gestação. No Brasil, ter um parto normal é uma façanha. Somos vistas como heroínas. Isso porque você vai passar por muitas maratonas antes deste grande momento e, talvez a maior delas, seja encontrar alguém disposto a embarcar nesta viagem com você. Infelizmente.

 

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Bem vindas!

Meu nome é Maria Fernanda, sou obstetra, mãe da Alice e aprendiz da maternidade. Sejam todos bem vindos ao meu blog!

 

Em 2015 eu vivi uma experiência incrível com a minha gestação. Estando do outro lado da cortina, pude entender melhor algumas dúvidas comuns entre as pacientes. Com isso, surgiu a ideia de fazer um blog. Através dele vou tentar fornecer informações que possibilitem uma gestação mais tranquila. Abordarei semanalmente assuntos baseados nas dúvidas do meu dia a dia no consultório e na minha vivência como gestante, puérpera e mãe. Recentemente eu decidi fazer postagens também com relatos de parto, para dividir as experiências vividas pelas mamães, contadas por elas.

Não esqueçam de deixar um comentário sobre o que acharam do blog, dúvidas ou sugestões para os próximos posts. Se acharem que as informações são úteis, compartilhem e sigam nossas páginas no instagram (@blogacaminho) e facebook (fb.com/blogacaminho).

 

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