Conhecimento para dar certo!


Essa semana foi bem intensa, passei por várias situações que reforçaram minha escolha pela obstetrícia e minhas crenças no parto normal. Tivemos um almoço do meu grupo de residência, depois uma jantar de comemoração com as pessoas que me ensinaram a ser obstetra e que foram essenciais na minha formação. Também reencontrei pacientes que tiveram partos incríveis, outras com partos mais complicados, algumas com cesariana após horas de trabalho de parto, mas todas bem felizes com o desfecho. Enfim, foi uma semana de muitas surpresas, de muito trabalho e resolvi escrever sobre isso.

Perdi as contas de quantas e quantas vezes eu já precisei responder que a melhor via de nascer é o parto normal, desde que esteja tudo certo com a mãe e o bebê. Porém esta semana fui questionada inúmeras vezes, algumas delas com bastante intensidade e uma certa “descrença” naquilo que eu estava explicando. Precisei usar todas as minhas habilidades de convencimento e acho que nem sempre eu tive sucesso.

Acordei hoje pensando nisso: por que, em pleno século XXI, quando temos toda a tecnologia e o desenvolvimento a nosso favor, ainda precisamos explicar que o normal é nascer de parto? Parece uma coisa tão óbvia, que me remete aos mais longínquos pontos da nossa existência, da nossa essência. Lutar por esta causa não deveria dar tanto trabalho, ser tão difícil.

É sim, muito difícil, mais até do que eu consigo explicar com palavras, e eu consigo ver alguns pontos que favorecem esta dificuldade. Vou tentar escrever sobre eles e, mais uma vez, buscar as melhores palavras para defender essa prática, esta arte e, algumas vezes, esta façanha de ter um parto normal.

Quando me perguntam por que o parto normal é a via normal para nascer eu tenho uma resposta curta, que as vezes serve, às vezes satisfaz, mas muitas vezes não resolve nada e precisa ser muito, mas muito elaborada. Esta semana minha resposta curta foi testada de forma incansável e precisou ser desdobrada pelos mais diversos caminhos do conhecimento para tentar defender minhas teses e, confesso, não sei se deu certo.

É difícil defender uma prática que, pra mim, parece óbvia, mas já foi tão massacrada nos últimos tempos que acabou virando a exceção e não a regra. Quando eu entrei na Residência do Conceição não fazia a mais vaga ideia de que eu me tornaria uma parteira por excelência, que este seria o meu maior prazer profissional e que eu teria que batalhar por isso todos os dias.

Então, esta semana eu reencontrei muitas daquelas pessoas que me acompanharam nos 3 anos de residência médica, que me ensinaram a ser como eu sou, desde a parte mais simples, de receber a paciente, acolhê-la com cuidado e carinho até o momento do parto ou então de atender uma complicação mais grave. Eu entendi que muito amor e dedicação acabam dando sentido a tudo, mesmo quando você só encontra aquela paciente no momento do parto.

É o conhecimento/entendimento que dá coragem para o casal que está vivendo o trabalho de parto, que aceita passar por esta experiência, que topa o desafio de parir de forma “normal”. Fica muito mais fácil dizer para uma paciente que o parto é o melhor jeito de nascer quando ela já tem uma experiência prazerosa com ele, ou então sabe de alguma história legal, conhece pessoas que pariram ou então ela leu, pesquisou, aprofundou-se no assunto e se apaixonou, como nós, pelo tema.

Estas pacientes que entendem que o parto normal é um ato de muita doação, dedicação e de amor, que tira todos os nossos pudores, deixa nossos medos de lado e dá lugar a uma coragem até então desconhecida, acabam tendo uma experiência muito mais tranquila. Elas encaram a dor de uma forma muito menos dolorida, com o perdão da redundância e o parto não vira um sofrimento.

Muitas e muitas vezes eu ouvi “no SUS as pacientes não tem escolha, elas são "obrigadas" a sofrer as dores e terem parto normal”. Não, ninguém é obrigado a nada. Talvez nos plantões obstétricos, o parto seja mais difundido e mais praticado porque o plantonista tem mais tempo para defender suas ideias e também porque existe uma determinação do Ministério da Saúde para se tentar um parto, quando existe esta possibilidade. Parir não é um sofrimento, não digam esta palavra, pelo menos não perto de mim. Ela me machuca profundamente.

Eu passei por um parto, eu vivi a dor, senti esta dor. Ela não se tornou menos dolorida ou menos demorada por eu ser obstetra, mas sim, ela se tornou mais fácil por eu entender o que estava acontecendo, por eu estar preparada para ela. Para entender o processo de parto eu não preciso ser obstetra, só preciso ser curiosa, conversar, pesquisar, ir mais a fundo no processo de parir.

Essa foi minha maior lição desta semana tão “obstetricamente intensa”. É preciso falar mais sobre parto, desmistificar algumas crenças, orientar as gestantes e suas famílias para que eles estudem, leiam, informem-se sobre o tema. Estar preparado para o que vai acontecer é a melhor forma de passar pela experiência de um trabalho de parto sem traumas, sem que ele se torne o maldito sofrimento relatado por tantas e tantas pessoas.

A equipe que atende a paciente também precisa estar sintonizada com as condutas. Fazer obstetrícia com dedicação e muito amor é a melhor forma de conseguir passar para as pacientes como tudo pode acontecer de uma forma boa, mesmo com dor, mesmo que no final uma cesariana seja necessária. Mais do que isso, entender como funciona o parto, estudar, pesquisar sobre ele é a melhor forma de se preparar e perceber que se trata de um ato de amor e, como tal, exige um certo sacrifício.

Por favor, não me entendam mal. Não estou dizendo que quem escolhe a cesariana, prefere cesariana, com hora marcada, eletiva, seja esta pessoa o médico, a paciente, ou seus familiares, ama menos, dedica-se menos, doa-se menos. De jeito nenhum. Como eu sempre disse, eu prefiro o parto normal, defendo esta prática, mas respeito que pensa o contrário. Até porque, cesariana salva vidas.

Por isso, conversem muito sobre vias de parto, formas de nascer, posições, medos, incertezas, anestesia, ocitocina… tudo. Pesquisem tudo, perguntem tudo, façam um plano de parto e conversem sobre ele um milhão de vezes se for preciso, mas tentem se preparar para o parto. Com toda certeza, as pacientes com as melhores histórias de parto são aquelas que se preparam para este momento e foram acolhidas com amor pela equipe que as atendeu.

Bem vindas!

Meu nome é Maria Fernanda, sou obstetra, mãe da Alice e aprendiz da maternidade. Sejam todos bem vindos ao meu blog!

 

Em 2015 eu vivi uma experiência incrível com a minha gestação. Estando do outro lado da cortina, pude entender melhor algumas dúvidas comuns entre as pacientes. Com isso, surgiu a ideia de fazer um blog. Através dele vou tentar fornecer informações que possibilitem uma gestação mais tranquila. Abordarei semanalmente assuntos baseados nas dúvidas do meu dia a dia no consultório e na minha vivência como gestante, puérpera e mãe. Recentemente eu decidi fazer postagens também com relatos de parto, para dividir as experiências vividas pelas mamães, contadas por elas.

Não esqueçam de deixar um comentário sobre o que acharam do blog, dúvidas ou sugestões para os próximos posts. Se acharem que as informações são úteis, compartilhem e sigam nossas páginas no instagram (@blogacaminho) e facebook (fb.com/blogacaminho).

 

Obrigada pela visita!

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