Vale a pena tentar?

     Depois de alguns anos de Obstetrícia e, principalmente por ter estado do outro lado da cortina, eu aprendi que uma constante na vida das mulheres, gestantes, puérperas e mães, é a frustração. Infelizmente e automaticamente, nós criamos muitas expectativas de como as coisas vão acontecer, sonhamos com tudo, planejamos tudo, traçamos um organograma na nossa cabeça e insistimos para que o bebê siga este planejamento. Doce ilusão!

    Umas das premissas da maternidade, que já começa no dia que você descobre a gestação, é que quem dita o ritmo das suas vidas são os filhos, não mais vocês. Mesmo que a coordenação seja sua, que as normas sejam suas, o ritmo e os tempos são sempre de acordo com as prioridades deles. Mesmo que você seja a pessoa mais organizada do mundo com horários, os filhos sempre vão arrumar um xixi na hora de sair de casa, uma febre no meio da tarde, uma fome incontrolável na casa de um desconhecido e seu planejamento vai por água abaixo. Na gestação não é diferente.

      Meus último texto foi a respeito das últimas semanas de gestação, ansiedade, medos, tempo, paciência… hoje vou seguir neste assunto, mas falando sobre um momento bem específico, o dia do nascimento. Quando você vence todos os limites da paciência, sua e dos outros, e entra em trabalho de parto, espontâneo ou induzido. Acredito que, quando vocês conseguem manter um mínimo de sanidade mental para chegar até este momento, já podem se considerar heroínas. Muitas não têm tanta paciência assim.

       Então, minha preocupação hoje são aquelas pacientes que esperam o trabalho de parto, ele chega, com tudo, dilatação, contrações, bolsa rota, tudo … e simplesmente não nasce. É a tal da desproporção céfalo pélvica (DCP), ou seja, cabeça do bebê e pelve materna “não são compatíveis”, ou então uma falha na progressão do trabalho de parto. Nem vamos entrar aqui nas indicações por alterações do bem estar do bebê. Estas, acredito eu, são mais fáceis de aceitar e acabam gerando menos frustração.

       Não sei dizer quantas vezes eu já entrei em cesarianas de pacientes que entraram em trabalho de parto, espontâneo, com contrações regulares, tudo correndo bem e, lá pelas tantas, tudo para de progredir e precisamos indicar uma cesariana. Os mais radicais podem até dizer que foi por falta de paciência, ou então por não tentarmos de todos os jeitos, não importa. Desproporção ou parada na progressão são diagnósticos reais, que acontecem e precisam ser discutidos durante o pré natal, para que a frustração não se sobreponha a emoção do momento.

         Eu, como obstetra fico muito triste quando isso acontece. Minha primeira sensação é sempre “depois de tanto tempo tentando”. Sim, depois de tanto tempo tentando. Porque tentar, quando existem condições maternas e fetais, sempre, SEMPRE, é válido. Fisiologicamente falando, entrar em trabalho de parto prepara o corpo da mulher para o nascimento, o pós parto e a amamentação. O bebê também se beneficia desde período de contrações, ele se prepara para nascer.

      No último mês eu tive alguns trabalhos de parto, espontâneos ou induzidos, que acabaram em cesariana e me frustraram muito. Num deles, a paciente chegou com contrações muito regulares e um colo super favorável. Eu tinha certeza que iria nascer muito rápido, mesmo que ainda estivesse com 3cm. Não nasceu. O parto que parecia tão óbvio,  não evoluiu como esperado. Foi isso que me motivou a escrever este texto. 

   Foram 8h de trabalho de parto intenso, contrações regulares, bolsa rota, sem necessidade de ocitocina e com uma progressão bem diferente da que eu esperava. A dilatação estacionou em 7cm, com o bebê ainda muito alto. Até que, em determinado momento, a paciente me chamou e disse “eu cansei, não quero mais”. Embora esta pareça ser a solução mais fácil, nem sempre é. Especialmente quando você passou horas em trabalho de parto. O bebê nasceu, enorme e ficou tudo bem.

       O que mais me chamou atenção nesta “DCP” específica, foi a forma como a paciente lidou com a situação e a maturidade que ela teve para entender que não estava dando certo. Não é fácil entrar em trabalho de parto, ficar com contrações por horas e perceber que não está evoluindo de forma adequada, que não vai ser parto, mas que ainda assim valeu muito a pena ter tentado. Neste dia eu ouvi uma frase que me deixou dormir bem “eu sei que foi melhor tentar”.

       Era esse o ponto que eu queria chegar. Mesmo que não dê certo, ou melhor, que você entre em trabalho de parto e, por algum motivo, não nasça de parto, o que realmente importa é o bem estar da mãe e do bebê. A tentativa é sempre válida. Gostaria que todas as gestantes que passassem por um trabalho de parto que depois vira uma cesariana tivessem esse mesmo pensamento “eu tentei” e não a frustração por não ter dado certo.

       Lógico, sem radicalismos. Indicações de cesariana eletiva continuam valendo. Não acho interessante uma paciente com bebê pélvico (sentado) entrar em trabalho de parto, nem aquelas com cesariana prévias (mais de 2), ou então algumas outras indicações de cesariana que aparecem no pré natal. Porém, todas as outras, eu acho interessante chegarem pelo menos as 40 semanas e, se possível, tentar um parto normal, mesmo que depois vire uma cesariana.

      Entendo completamente que vocês se frustrem quando se preparam para um parto normal e ele não acontece, independente do motivo. Só não acho justo vocês permitirem que esta frustração seja maior que o prazer de se tornar mãe. A obstetrícia é uma caixinha de surpresas. Precisamos respeitar os tempos de evolução de cada mulher, de cada bebê, mas também precisamos respeitar quando as coisas não estão acontecendo de maneira adequada e pensar no plano B.

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Bem vindas!

Meu nome é Maria Fernanda, sou obstetra, mãe da Alice e aprendiz da maternidade. Sejam todos bem vindos ao meu blog!

 

Em 2015 eu vivi uma experiência incrível com a minha gestação. Estando do outro lado da cortina, pude entender melhor algumas dúvidas comuns entre as pacientes. Com isso, surgiu a ideia de fazer um blog. Através dele vou tentar fornecer informações que possibilitem uma gestação mais tranquila. Abordarei semanalmente assuntos baseados nas dúvidas do meu dia a dia no consultório e na minha vivência como gestante, puérpera e mãe. Recentemente eu decidi fazer postagens também com relatos de parto, para dividir as experiências vividas pelas mamães, contadas por elas.

Não esqueçam de deixar um comentário sobre o que acharam do blog, dúvidas ou sugestões para os próximos posts. Se acharem que as informações são úteis, compartilhem e sigam nossas páginas no instagram (@blogacaminho) e facebook (fb.com/blogacaminho).

 

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