Intervenções necessárias!

     Durante o pré natal, muitas mulheres relatam experiências ruins em gestações anteriores, com partos normais traumáticos, ou cesariana sem um motivo real, sem muita explicação, ou então com uma desculpa esfarrapada. Concordo com a maioria delas, no entanto, não podemos colocar todos os obstetras, ou a equipe envolvida no processo, ou ainda todos os Hospitais num mesmo lado. Às vezes as perguntas são tão tendenciosas, ou mesmo agressivas, que parece que os médicos passam 9 meses pensando numa desculpa para indicar cesariana. Definitivamente, não é bem assim, ou melhor, nem sempre é assim.

    Por quase 6 semanas eu, meu obstetra e meu marido matamos no peito uma toxoplasmose na gestação. Optamos por não contar pra ninguém que pudesse criticar minha escolha pelo parto normal e seguimos nosso plano inicial. Eu confie totalmente nele durante todo o pré natal. Em momento algum senti por parte do meu obstetra uma forçação de barra para encurtar a gestação. Inclusive, quando chegamos a 40s5d a pergunta dele foi: “o que você quer fazer?” E, juntos, optamos pela indução do parto. Jamais eu conseguiria pensar com tanta clareza sem o suporte dele.

      Resolvi tocar neste assunto, não para defender práticas inadequadas, longe de mim, ou tentar convencer vocês que não existem intervenções desnecessárias, cesarianas desnecessárias (a maioria é assim, infelizmente). Só não podemos colocar todas as equipes que prestam atendimento Hospitalar numa mesma posição, como se todos fossem cesaristas, ou então acelerem o processo de parto para que ele ocorra de forma mais rápida. Podemos sim ter um parto lindo, humanizado e sem intervenções desnecessárias em um ambiente hospitalar, com a segurança necessária para que mamãe e bebê fiquem bem. Às vezes parece que um parto humanizado só pode acontecer em casa. Por favor, não é assim.

     Há bastante tempo meu consultório começou a encher de pacientes que desejam uma experiência de parto (graças a Deus). Algumas vêm para entender o processo, outras só estão curiosas, mas algumas vêm munidas de todas as informações necessárias, com embasamento científico, sabendo exatamente o que significa um parto normal humanizado. O problema é que nem sempre a prática segue a risca a tão estudada teoria. Nem sempre o plano traçado lá no início da gestação poderá ser seguido ao final das 40 semanas.

     Quando me perguntam se todos os bebês poderiam nascer de parto, costumo dizer que, em gestações únicas, de risco habitual (baixo), sim. Desde que este bebê não seja preguiçoso e resolva nascer sentado. Porém, nem sempre as coisas seguem os planos. Alguns bebês sentam, outros ficam transversos (de ombro), outras vezes aparece uma diabete gestacional, uma hipertensão, restrição de crescimento, pré eclâmpsia ou, simplesmente, 41s com colo grosso, posterior e fechado. Em todas estas situações precisamos alçar mão de um plano B e esta necessidade tem me trazido algumas dores de cabeça.

      Decidimos, num sábado a tarde, induzir meu parto no domingo pela manhã e meu obstetra sugeriu fazer um descolamento de membranas. Uma manobra invasiva, sim, mas uma opção não medicamentosa de indução de parto que, se funcionar - como funcionou pra mim - vai fazer com que você entre em trabalho de parto e tenha o tão sonhado desfecho, um parto normal. Uma série de fatores são necessários para que possamos descolar as membranas. Em primeiro lugar, e mais importante de tudo, precisamos ter o consentimento da paciente. Ela precisa concordar com isso. Até porque não é um procedimento indolor. Em segundo lugar, e não menos importante, o colo da paciente precisa ser favorável. Não temos como deslocar membranas em um colo grosso, posterior e fechado. Bem como, não tem como alguém descolar as suas membranas sem você saber. É desconfortável.

      Outro ponto que tem me causado alguns problemas é a chegada na data provável de parto, 40 semanas, com colo desfavorável. Em gestações “normais”, de risco habitual, podemos ir até 41 semanas. Vai exigir um pouco mais de paciência, especialmente da família, mas é bem factível, sem nenhum prejuízo quando o bebê e a mãe estão bem. Precisamos fazer avaliação fetal com mais frequência, ter um controle melhor da movimentação fetal e, algumas vezes, avaliar o volume de líquido amniótico por ecografia. Porém, precisamos pensar num plano B, às vezes C e D.

     Eu super entendo que o sonho é entrar em trabalho de parto, espontâneo, com o mínimo de intervenções, evoluindo para um parto normal, sem episiotomia, sem ocitocina ... porém nem sempre as coisas acontecem dessa forma. É muito importante que vocês conversem com o obstetra sobre planos alternativos, formas não medicamentosas de indução de parto. Quando nada disso funcionar, talvez seja o momento de pensar se queremos mesmo um parto e então partirmos para uma indução medicamentosa. Eu, particularmente, quando há condições de colo, acho mais proveitoso usar uma ocitocina a partir de cara para uma cesariana, mas essa decisão é muito particular.

      E quando a bolsa rompe e as contrações não chegam? Ou então o GBS (estrepto) é positivo e nada de contrações? Pois então, precisamos ter um plano alternativo nestas situações também. Quando está indicado uso de antibiótico durante o trabalho de parto, a paciente precisa ir pro hospital tão logo ela perceba que a bolsa rompeu, ou então que as contrações se tornaram regulares. Não tem como fazer profilaxia via oral, ou então tratar durante a gestação. A prevenção só é efetiva quando acontece durante o processo de parto.

      Além disso, quando a bolsa rompe em pacientes com GBS negativo, não é possível ficar em casa aguardando as contrações por tempo indeterminado. Precisamos montar um plano de ação para estes casos. É importante avaliar a cor do líquido, os movimentos fetais, se tem ou não sangramento. Conversar com seu Obstetra de como vocês devem proceder, quanto tempo podem esperar. Até porque, na imensa maioria das vezes a bolsa rompe quando já temos um trabalho de parto ativo, ou então a ruptura é o gatilho para que as contrações comecem, mas esse processo não é regra. Algumas vezes a bolsa rompe, passam-se horas e nada acontece e, nestas situações, precisamos ter um plano alternativo de conduta.

     É muito importante conversar sobre formas alternativas de indução e parto, durante o pré natal, na tentativa de esgotar as dúvidas ou minimizá-las ao máximo. Não podemos deixar a paciente que sonha com um parto normal, espontâneo, chegar às 41 semanas sem opção de conduta. Mesmo antes da data provável do parto podemos alçar mão de algumas práticas de ioga, exercícios específicos, acupuntura, essências e alguns alimentos, que podem ajudar com o trabalho de parto.

     Se nada disso acontece, as contrações não chegam, a bolsa não rompe, ou é preciso antecipar o nascimento, nem sempre a cesariana é necessária. Quando a mãe e o bebê tem condições e o colo da gestante é favorável, acredito que a indução de parto ainda seja a melhor opção. Mesmo que para isso seja necessário o uso de medicações para preparo do colo ou indução de contrações. Abram a mente para as possibilidades. Foquem no desfecho principal - o nascimento - e tentem conhecer o maior leque de opções possíveis para atingir este objetivo.

     Gestantes, tentantes, mamães, papais ... Leiam sobre o parto, assistam vídeos de parto, relatos de parto. Conversem com mulheres que já passaram por estas experiências. Se possível, conversem com alguém que já viveu uma cesariana e também um parto normal. Procurem profissionais que entendam e respeitem suas escolhas e também o processo de nascer.

    Mais importante do que como o parto acontece é ele acontecer, de fato. De preferência, sem intervenções desnecessárias, óbvio. Porém nem sempre isso é possível. Precisamos sempre pensar que o parto é a melhor via para nascer, desde que esteja tudo bem. Entrar em trabalho parto de forma espontâneo é a maneira ideal, mas se for necessário uma indução e ela for viável, acredito que vale a pena tentar.

 

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Bem vindas!

Meu nome é Maria Fernanda, sou obstetra, mãe da Alice e aprendiz da maternidade. Sejam todos bem vindos ao meu blog!

 

Em 2015 eu vivi uma experiência incrível com a minha gestação. Estando do outro lado da cortina, pude entender melhor algumas dúvidas comuns entre as pacientes. Com isso, surgiu a ideia de fazer um blog. Através dele vou tentar fornecer informações que possibilitem uma gestação mais tranquila. Abordarei semanalmente assuntos baseados nas dúvidas do meu dia a dia no consultório e na minha vivência como gestante, puérpera e mãe. Recentemente eu decidi fazer postagens também com relatos de parto, para dividir as experiências vividas pelas mamães, contadas por elas.

Não esqueçam de deixar um comentário sobre o que acharam do blog, dúvidas ou sugestões para os próximos posts. Se acharem que as informações são úteis, compartilhem e sigam nossas páginas no instagram (@blogacaminho) e facebook (fb.com/blogacaminho).

 

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