Induções de parto!

     Sempre que me perguntam quanto tempo leva um trabalho de parto normal eu respondo a mesma coisa: “não tem como prever”. Em geral, multíparas (mais de um parto) têm partos mais rápidos e primíparas (primeiro parto) são mais demoradas. Porém, tudo depende, basicamente, de quando você vai entrar, de verdade, em trabalho de parto. Ou seja, quando as contrações ficam regulares e a dilatação do colo começa a evoluir. Na maior parte das vezes, falando de uma forma bem simplista, o que leva mais tempo são os primeiros 5cm.

       Normalmente, depois de 38, 39 ou 40 semanas, as pacientes acabam entrando em trabalho de parto espontâneo. Porém, algumas chegam as 41s sem trabalho de parto ou então aparece alguma intercorrência na qual precisamos adiantar o nascimento. Nestes casos, a cesariana vira logo a primeira opção. Acredito que a maioria dos obstetras pense assim e também a imensa maioria das pacientes. Já que temos um imprevisto, vamos fazer logo uma cesariana. Não é bem assim. Quando há condições clínicas da mãe e do bebê e um colo favorável, o parto ainda é a melhor alternativa.

      Certas patologias, como diabete gestacional, colestase hepática ou pré eclâmpsia, só para dar alguns exemplos, têm uma data limite para o nascimento. Porém, se estiver tudo bem com a mãe e o bebê, o parto pode ser por via baixa. Não é muito fácil encontrar colegas que sigam esta conduta, muito menos convencer a paciente e seus familiares disso, mas estamos aí para tentar. Talvez, nestes casos onde se programa uma indução mais prolongada, o plantão obstétrico acabe sendo a melhor opção.

     Nas últimas semanas eu tive uma enxurrada de partos normais. Alguns destes partos foram modelo “mamão com açúcar”, barbadinha, internou nasceu. Outros foram um pouco mais demorados, mas normais, com evolução espontânea. No entanto, alguns deles não foram bem assim. É sobre estes que eu quero falar.

      O primeiro ponto que deve ser levado em conta quando você pretende fazer uma indução de parto é o desejo da gestante. Mesmo que ela tenha todas as condições para indução, vai precisar entender que não é um processo fácil, muito menos que será rápido. Paciente e acompanhante precisam se preparar para um processo longo, em geral com mais de 20 a 24h. Outro ponto importante é você ter uma equipe de apoio. É complicado ficar mais de 24h fechada no hospital. Talvez por isso o plantão obstétrico seja tão importante. Ter colegas que “falam a mesma língua” dá para as pacientes mais segurança para encarar uma indução, mesmo que ela dure mais de 24h.

     Além dos partos bem "normais", também tive duas induções prolongadas, ambas por patologias maternas. Numa delas, a paciente tinha um parto prévio e colo muito favorável. Na outra, ela era primigesta, com colo bom, mas necessidade de indução, provavelmente longa. Ambas toparam a tentativa de parto e, por uma feliz coincidência, as duas ficaram induzindo por 24h, com parto normal, sem episiotomia e sem intercorrências, com bebês nascendo ótimos e as mamães ficando realizadas.

      E eu? Bom, eu chorei nos dois pós partos, porque não tem como ser diferente. Aliás, a equipe toda se emocionou, pois foram partos longos, trabalhosos, mas lindos e cheios de amor. Vou dividir estas duas histórias com vocês para encorajar outras mães, pais e familiares, ou curiosos e também para mostrar que pode dar certo e vale muito a pena tentar.

     A primeira indução começou no final da tarde. Era uma mamãe com diabete gestacional bem controlada, que levou a gestação até 40 semanas e era hora do bebê nascer. O colo era muito bom, 3cm, com parto prévio. Eu tinha certeza que seria uma indução, no máximo, de 12h. Doce ilusão. Quando fecharam estas 12h a paciente nem sequer tinha contrações e o colo continuava o mesmo. O que fazer? O óbvio, seguimos tentando. Como eu disse lá anteriormente, os primeiros 5cm são sempre os mais difíceis. Aqui não foi diferente. Quando já estávamos com 20h de indução, dose alta de ocitocina, seguíamos com 5cm. Decidimos romper bolsa e, magicamente, 4h depois a dilatação estava completa e o bebê nasceu.

    Lógico, foi uma indução com várias intervenções. Iniciamos com ocitocina, progressivamente aumentamos a dose da medicação e foi preciso romper bolsa para que as contrações se tornassem regulares. A paciente solicitou analgesia com 8cm - nada mais justo para que já estava há 23h no processo de indução. Uma hora depois da analgesia, a dilatação estava completa e foi preciso uma única força para a criança nascer. Naquele momento todo o esforço anterior valeu a pena e ninguém mais lembrava que já estávamos ali há 24h.

      A outra situação era um pouco mais complexa. Paciente primigesta, com diagnóstico de colestase hepática desde as 31s. Esta é uma patologia gestacional com alteração de função hepática, muita coceira pelo corpo, especialmente à noite, nas mãos e nos pés e risco de óbito fetal, quando não controlada. Ela usou medicação direitinho, desde o momento do diagnóstico, fizemos avaliação de bem estar fetal rigorosa e controle laboratorial adequado. Por isso tivemos condições de levar a gestação até às 36 semanas. Eu até marquei a cesariana, mas ela tinha muita vontade de ter um parto normal e resolvemos tentar. 

    Neste caso o colo precisava ser preparado antes da indução com ocitocina. Usamos um comprimido de misoprostol, que preparou o colo e depois disso, já com algumas contrações, começamos com ocitocina. Foram quase 21h para chegar aos 4cm. Quando começaram as contrações regulares ela já estava cansada, com muita dor, resolvemos fazer analgesia. Magicamente, 1h depois ela estava com dilatação completa e a bebê nasceu, cheia de saúde.

     Mesmo que tenham sido dois partos com muitas intervenções, NECESSÁRIAS, paciente, marido e toda a equipe da assistência se emocionou. Foi demais. Ninguém achou ruim as horas de ocitocina ou a necessidade de romper bolsa. Só lembrávamos que o objetivo final fosse alcançado - UM PARTO NORMAL. Sem episiotomia, diga-se de passagem. 

    Quando você deseja ter um parto normal, sem intervenções, é muito importante conversar com o pré natalista sobre isso, mas também é importante conhecer algumas intervenções que talvez se tornem necessárias. Não podemos desistir de tentar um parto normal só porque não entramos em trabalho de parto de forma espontânea, ou então alguma intercorrência apareceu e o nascimento precisou ser adiantado. Mesmo que o preparo do colo, a indução com ocitocina ou a analgesia sejam necessárias, ainda assim a tentativa é válida.

 

Compartilhe
Compartilhe
Curtir
Please reload

Bem vindas!

Meu nome é Maria Fernanda, sou obstetra, mãe da Alice e aprendiz da maternidade. Sejam todos bem vindos ao meu blog!

 

Em 2015 eu vivi uma experiência incrível com a minha gestação. Estando do outro lado da cortina, pude entender melhor algumas dúvidas comuns entre as pacientes. Com isso, surgiu a ideia de fazer um blog. Através dele vou tentar fornecer informações que possibilitem uma gestação mais tranquila. Abordarei semanalmente assuntos baseados nas dúvidas do meu dia a dia no consultório e na minha vivência como gestante, puérpera e mãe. Recentemente eu decidi fazer postagens também com relatos de parto, para dividir as experiências vividas pelas mamães, contadas por elas.

Não esqueçam de deixar um comentário sobre o que acharam do blog, dúvidas ou sugestões para os próximos posts. Se acharem que as informações são úteis, compartilhem e sigam nossas páginas no instagram (@blogacaminho) e facebook (fb.com/blogacaminho).

 

Obrigada pela visita!

Compartilhe:
  • Facebook Social Icon
  • Google+ Social Icon
  • Twitter Social Icon
  • Pinterest Social Icon
Mais lidos:

Movimentação Fetal!

16/09/2020

1/5
Please reload

Tags:
Please reload

This site was designed with the
.com
website builder. Create your website today.
Start Now