Lute por suas escolhas!

      Terminei a residência de obstetrícia em 2010 e, desde então, tenho consultório. Porém, só em 2018 eu consegui priorizar, de fato, os partos normais e, a partir deste ano, deixei de fazer cesarianas sem indicação obstétrica. Raramente eu opero de forma eletiva, por desejo materno. Isso não quer dizer que eu não faça cesariana, ou tente parto a qualquer custo, nada disso. Apenas optei por priorizar aquilo que eu acredito - e as evidências provam - ser a melhor escolha.

     Como toda ação, esta escolha teve sua “reação”. Perdi algumas pacientes que chegavam no consultório querendo saber a data da cesariana já na primeira consulta; ou então aquelas que mudam de ideia ao longo do caminho. No entanto, consegui convencer outras tantas a tentarem um parto normal e tive desfechos incríveis.

       Por que estou escrevendo sobre isso? Simples, acho que todo mundo tem direito de escolher por onde seu filho vai nascer, mas é importante explicarmos prós e contras para as pacientes e dar a elas uma escolha com mais embasamento. Por outro lado, o médico também tem o direito de não estar disponível para parto normal. Não está errado.

     Nosso país é o segundo no mundo em números de cesariana. Essa colocação tem muito a ver com a nossa cultura. Infelizmente ainda achamos que a cesárea é melhor. Experimente conversar numa roda de amigas, familiares ou no trabalho. Aposto que a grande maioria vai dizer que a cesariana é muito melhor, mais prática, rápida e indolor. Pois então, precisamos mudar essa cultura. No Canadá, por exemplo, as taxas de cesariana são de, pasmem, 21% e eles não estão satisfeitos, acham alta demais.

     Estou cansada de ser culpada (como obstetra) pelo excesso de cesarianas. Concordo absolutamente quando dizem que muitos (talvez a maioria) dos obstetras prefira fazer cesariana. Porém, se vocês conversarem com as mulheres em idade fértil, com ou sem filhos, vão ver que muitas, se não a maioria, infelizmente já tem uma cesariana e, na imensa maioria das vezes ela foi feita “por opção”.

       Isso não isenta em nada minha (obstetra) parcela de culpa. Informação, ou a falta de, é a grande culpada por sermos o segundo país no mundo em números de cesariana. Se “perdêssemos mais tempo” explicando os benefícios de um parto normal, com certeza reduziríamos o número de cesarianas eletivas. Especialmente daquelas pacientes que nunca tiveram filhos. É muito importante lembrar que a primeira cesariana diz muito a respeito do seu futuro obstétrico.

     Outro dia eu perdi um pouco a paciência com os ativistas da cesariana eletiva e passei a tarde no consultório fazendo uma pequena pesquisa sobre o passado obstétrico das pacientes naquele dia. Quem me dera não tivesse feito. A maioria absoluta delas, naquele dia, já tinham feito uma cesariana, muitas delas mais de uma, e, na imensa maioria das vezes a via de parto não tinha a ver com indicação obstétrica, mas sim com uma escolha pessoal ou então aquelas indicações “furadas”, que povoam as nossas maternidades.

     Depois desta pesquisa eu senti necessidade de escrever sobre isso. Senti necessidade de dividir minha ansiedade e tentar encorajar vocês a tentarem, ou, no mínimo, abrirem a cabeça para o parto. Já melhoramos muito os índices de parto normal nos últimos tempos, especialmente naquelas maternidades que se propõe a ter um plantão assistencialista e com condições de atender as pacientes que optam por um parto adequado, mas estamos longe de uma porcentagem ideal.

      Quando você escolhe um parto normal, ou pelo menos tem vontade de aprender mais sobre, ouvir uma opinião favorável, você precisa buscar referência, ler sobre o assunto, conversar com quem já passou pelo processo, com quem entende de parto, mas, principalmente, escolher uma equipe que apoie e respeite a sua escolha. Ou então abrir a cabeça para o plantão obstétrico, como acontece nos países de primeiro mundo, onde as taxas de parto normal, às vezes, superam os 80%.

       Fica muito fácil culpar o obstetra ou a sociedade e não levar em consideração que a protagonista do parto e quem deveria dar a última palavra sobre a escolha (desde que bem orientada para isso) é a gestante, não o médico. Eu sofro muito quando escuto as gestante dizendo “eu queria parto, mas meu médico (mãe, marido, amiga…) disseram que …” Como assim?

     Quando você quer um parto precisa lutar por ele, ou pelo menos buscar uma segunda, terceira, quarta opinião. Muitas vezes a solução para o tão sonhado parto normal é o plantão obstétrico. Tudo bem, se precisar ser assim, faça valer a sua vontade e procure um plantão que possa atender às suas expectativas, que te acolha e respeite sua opção por um parto normal.

      Precisamos unir forças para aumentar nossos índices de parto normal e não apontar culpados pelo excesso de cesarianas. Enquanto ficarmos culpando médicos pelas cesarianas e vitimizando as pacientes por serem direcionadas para esta escolha, não vamos melhorar. Já passou da hora de batermos o pé pelas nossas escolhas. Nosso acesso a informação nunca foi tão fácil.

       Procurem, pesquisem, conversem sobre a via de parto e, se não ficarem satisfeitas com as explicações, busquem outras opiniões. Não concordem com uma cesariana sem estarem convencidas de que é a melhor escolha. Não se submeta a um processo cirúrgico se não estiver completamente de acordo com ele.

      Lembre-se que o poder de escolha é sempre da paciente, não do médico, da doula, da família ou da enfermeira obstetra. Nós somos os responsáveis por guiar as suas escolhas, muni-las de informações, entendimento, critérios, esclarecer dúvidas, mas o martelo quem bate são sempre vocês. Chega de cesariana porque alguém disse que era melhor assim. Não existe “melhor assim”, existe indicação obstétrica.

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Bem vindas!

Meu nome é Maria Fernanda, sou obstetra, mãe da Alice e aprendiz da maternidade. Sejam todos bem vindos ao meu blog!

 

Em 2015 eu vivi uma experiência incrível com a minha gestação. Estando do outro lado da cortina, pude entender melhor algumas dúvidas comuns entre as pacientes. Com isso, surgiu a ideia de fazer um blog. Através dele vou tentar fornecer informações que possibilitem uma gestação mais tranquila. Abordarei semanalmente assuntos baseados nas dúvidas do meu dia a dia no consultório e na minha vivência como gestante, puérpera e mãe. Recentemente eu decidi fazer postagens também com relatos de parto, para dividir as experiências vividas pelas mamães, contadas por elas.

Não esqueçam de deixar um comentário sobre o que acharam do blog, dúvidas ou sugestões para os próximos posts. Se acharem que as informações são úteis, compartilhem e sigam nossas páginas no instagram (@blogacaminho) e facebook (fb.com/blogacaminho).

 

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