Missão quase impossível

      Cada vez mais eu tenho certeza que obstetrícia se faz em Equipe, multidisciplinar e também de substitutos. Quando você escolhe trabalhar com obstetrícia e, especialmente, decide fazer parto normal, deve entender que não tem dia, nem hora, nem um tempo pré determinado. Não é possível você fazer planos de viagem, férias ou finais de semana livres se não tiver uma equipe de suporte ou então um plantão obstétrico de confiança.

       Hoje vou contar a história de um parto que só deu certo porque houve confiança, determinação e muita, muita paciência de todos os envolvidos, um verdadeiro trabalho em equipe. Não costumo fazer relatos de parto, prefiro que as próprias pacientes contem suas histórias. Vou abrir uma exceção desta vez, pois vale a pena dividir essa experiência cheia de obstáculos e com um final mais do que feliz.

      No dia 17/08/2019 eu aprendi mais uma lição, para a obstetrícia e para a vida. Foi um parto cheio de intervenções, de teimosia, de persistência, de paciência e, no final das contas, de muito amor, parceria, companheirismo. Numa época em que todos tem opiniões sobre a gestação e, a maioria delas vai contra o parto normal, achei importante dividir com vocês uma história de superação que deu mais do que certo.

     A Andreia, uma primigesta, estava com dificuldade para encontrar alguém que fizesse seu parto sem ficar dizendo que ela era muito velha para tentar. Mesmo depois de muitas consultas frustradas e, para minha sorte, ela nunca desistiu. Nos conhecemos por volta das 34 semanas. Lembro que a primeira coisa que ela me disse foi “eu só queria tentar um parto normal”. Essa é uma das minhas frases favoritas no consultório. Além disso, eu adoro contrariar “obviedades” e fazer os partos darem certo.

     Exceto por uma diabete gestacional, bem controlada, o resto estava tudo bem. Porém, numa avaliação de rotina, com 37 semanas, a pressão subiu um pouquinho e eu resolvi fazer rastreio de pré eclâmpsia, que foi positivo. Juntando a idade gestacional, a diabete gestacional, o peso fetal e, agora o diagnóstico de pré eclâmpsia, a conduta correta e mais segura era interrupção da gestação. Entretanto, não necessariamente precisava ser cesariana.

      Propus uma indução de parto, ela e o esposo toparam. Internou sabendo que poderia ser um processo demorado, pois seria preciso preparar o colo primeiro e, só depois de uma modificação adequada, iniciaríamos com a indução propriamente dita. Então, numa quinta feira à tarde depois de mãe e bebê devidamente avaliados, começamos o processo.

       Começamos o preparo do colo com misoprostol e foram necessárias duas doses até o colo ser viável para colocarmos uma sonda que tornaria o processo mais dinâmico. E assim se passaram 24h. Na tarde de sexta feira o colo já era bem melhor e eu coloquei a sonda para fazer uma modificação mais efetiva.

       Passadas umas 6 ou 7 horas a sonda caiu e as contrações já estavam começando. Era hora de partir para ocitocina. Na madrugada de sábado já estávamos com uma boa dose de ocitocina, 5 ou 6 cm de dilatação e contrações ainda irregulares. Mãe e bebê em excelentes condições de saúde. Era preciso só mais um pouquinho de dilatação para que tudo acontecesse. Porém, obstetrícia não é uma ciência exata.

        Entre indas e vindas para casa eu tinha passado a maior parte do tempo no Divina e estava de plantão naquela madrugada. Passei a noite monitorando contrações, avaliando bem estar fetal e dilatação. Embora com 6cm, o parto ainda parecia muito distante. Eu tinha 2 outras pacientes em trabalho de parto então o tempo passou muito rápido, mas a dilação não evoluiu na mesma proporção…

       Chegou às 8h, a troca do plantão. Eu estava muito ansiosa com as quase 36h de indução de parto e já pensando em indicar cesariana. Estava tudo muito bem, não tinha nenhum motivo para operar, mas eu precisava descansar, já estava há quase 48h naquela função.

        Neste momento, ter uma equipe obstétrica de confiança fez toda a diferença. Ela já estava com analgesia de parto e com uma boa dose de ocitocina. Conversei com a paciente, expliquei a situação e disse que o Dr Júlio assumiria o parto. Ele entrou com todo o gás, renovado e com disposição de sobra para seguir tentando.

         Foram mais algumas horas de contração até que a dilatação estivesse completa e, no início da tarde do sábado, 17/08/2019, depois de quase 48h de indução a Sarah nasceu. Linda, cheia de saúde, enchendo o ambiente de muito amor e emoção.

        Nem preciso dizer que fiquei “monitorando” de longe a evolução do parto e chorei quando recebi a notícia que tinha nascido. Chorei de novo quando ela me mandou a foto e depois quando fiz a revisão de parto. Não é muito comum alguém topar uma indução tão longa, com tantas intervenções (necessárias e bem discutidas, em equipe e com a paciente). Foi muito gratificante participar deste parto. Paciente e familiar ficaram realizados com o desfecho e eu, não tenho palavras para descrever minha felicidade.

       Este relato mostra um pouco da dificuldade que algumas pacientes enfrentam quando escolhem um parto normal e, além disso, mostram a importância de termos um plantão obstétrico alinhado com as condutas favoráveis ao parto, disposto a tentar e a assumir processos de parto em curso e, muito importante, que respeitem a vontade da paciente e “insistam” quando todos já estão prestes a desistir.

         Obrigada Andrea e Leandro por me darem a chance viver mais este ensinamento desafiador e obrigada Dra Bruna e Dr Júlio, meus colegas de plantão, que toparam comigo esta indução e me deram força para seguir quando eu já estava desanimando.

      Além disso, obrigada a Equipe do Centro Obstétrico do Hospital Divina Providência, que embarcou nesta louca e divertida viagem que nos motiva e nos desafia e, as vezes, irrita - o tão sonhado Plantão Obstétrico.

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Bem vindas!

Meu nome é Maria Fernanda, sou obstetra, mãe da Alice e aprendiz da maternidade. Sejam todos bem vindos ao meu blog!

 

Em 2015 eu vivi uma experiência incrível com a minha gestação. Estando do outro lado da cortina, pude entender melhor algumas dúvidas comuns entre as pacientes. Com isso, surgiu a ideia de fazer um blog. Através dele vou tentar fornecer informações que possibilitem uma gestação mais tranquila. Abordarei semanalmente assuntos baseados nas dúvidas do meu dia a dia no consultório e na minha vivência como gestante, puérpera e mãe. Recentemente eu decidi fazer postagens também com relatos de parto, para dividir as experiências vividas pelas mamães, contadas por elas.

Não esqueçam de deixar um comentário sobre o que acharam do blog, dúvidas ou sugestões para os próximos posts. Se acharem que as informações são úteis, compartilhem e sigam nossas páginas no instagram (@blogacaminho) e facebook (fb.com/blogacaminho).

 

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