Cesárea, não!

      Quando uma gestante entra na consulta e me diz que quer fazer cesariana porque a outra foi fácil, deu tudo certo ou não doeu nada, ou então, porque todas as amigas fizeram e acharam ótimo, não vou argumentar contra, muito pelo contrário, vou explicar os motivos pelos quais eu prefiro parto normal, embasar minhas escolhas e deixá-la à vontade para trocar de pré natalista.

     Não apoio o parto normal porque cesárea é pior, complica ou dói mais. Eu escolho e prefiro o parto normal porque é a via fisiológica, com mais benefício para a mãe e para o bebê. É fundamental deixarmos isso bem claro nas consultas de pré natal.
    A primeira cesariana é sempre um divisor de águas para a vida obstétrica das pacientes. No Brasil tratamos esse assunto com uma certa "banalidade". Não é "só uma cesariana". É uma cirurgia e, como qualquer outra que envolve abertura da cavidade abdominal, inclui anestesia, corte, sondagem vesical - dependendo da equipe, jejum antes e depois do procedimento e um bom tempo de sala de recuperação.

      Na imensa maioria das vezes a cesariana é super tranquila, leva pouquíssimo tempo, você sente uma dor leve a moderada e sua recuperação será ótima. O tempo entre a internação hospitalar e o nascimento do bebê raramente ultrapassa as duas horas. Dá tempo de combinar com toda a família e amigos com antecedência, maquiar, fazer unhas e cabelo e chegar linda no dia do nascimento do filho.

     Então porque eu prefiro parto normal que vai doer, demora muitas horas, às vezes dias e pode não dar certo? Simples, fisiologicamente é melhor, hormonalmente é melhor, a recuperação é melhor e para o bebê, é muito melhor.

    Quando jé temos uma cesariana, aumentam os riscos de implantação anômala de placenta e de ruptura uterina numa próxima gestação; A recuperação da cesariana é mais longa e com mais dor no pós operatório imediato. Por ser um procedimento cirúrgico, a morbimortalidade é maior, com maiores riscos de hematoma de ferida operatória, infecção puerperal, sangramento aumentado (com necessidade de histerectomia em alguns casos), tromboembolismo venoso e complicações anestésicas.

     O bebê que nasce de cesariana, sem trabalho de parto, também tem um risco aumentado de disfunções respiratórias, por isso temos uma lei que orienta cesariana eletiva somente após as 39 semanas. Além disso, alguns estudos já relacionam o parto com uma ativação do sistema imune do bebê.

      Embora os riscos absolutos de complicação na cesariana ainda sejam pequenos, o parto normal complica menos, sangra menos, não é cirurgia, não tem corte (obrigatório), não necessariamente precisa anestesia, permite um contato mais próximo com o bebê e facilita a amamentação. É melhor em todos os sentidos. Mesmo quando o trabalho de parto vira uma cesariana, necessária, independente do motivo, é melhor do que a cesariana eletiva.

       Resolvi escrever sobre isso porque me cansa um pouco, às vezes, bater na tecla de que o parto é melhor que a cesariana e ouvir - "mas eu fiz cesárea e não aconteceu nada, foi ótimo". Sim, em geral é isso que acontece.

     Cesariana é um procedimento cirúrgico. Precisamos respeitar mais a fisiologia do nascimento e fornecer mais informações sobre os benefícios de um parto normal. Precisamos "perder" mais tempo fazendo apologia ao parto. Conhecimento é a pedra chave para diminuirmos nossos índices de cesariana. Por isso eu acho tão importante os relatos de parto. Dividir histórias contagia e encoraja. 

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Bem vindas!

Meu nome é Maria Fernanda, sou obstetra, mãe da Alice e aprendiz da maternidade. Sejam todos bem vindos ao meu blog!

 

Em 2015 eu vivi uma experiência incrível com a minha gestação. Estando do outro lado da cortina, pude entender melhor algumas dúvidas comuns entre as pacientes. Com isso, surgiu a ideia de fazer um blog. Através dele vou tentar fornecer informações que possibilitem uma gestação mais tranquila. Abordarei semanalmente assuntos baseados nas dúvidas do meu dia a dia no consultório e na minha vivência como gestante, puérpera e mãe. Recentemente eu decidi fazer postagens também com relatos de parto, para dividir as experiências vividas pelas mamães, contadas por elas.

Não esqueçam de deixar um comentário sobre o que acharam do blog, dúvidas ou sugestões para os próximos posts. Se acharem que as informações são úteis, compartilhem e sigam nossas páginas no instagram (@blogacaminho) e facebook (fb.com/blogacaminho).

 

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