Nem 8, nem 80!

      Vivemos num tempo de muitos extremos, em todas as áreas, e extremos são sempre perigosos. Na minha profissão, de parteira, ao invés de encurtamos distâncias com a melhora do acesso à informação e a evolução da medicina, estamos vivendo exatamente o contrário. Precisamos despolarizar nossas posições em relação ao parto normal. Não existe 8 ou 80 em Obstetrícia. O que existe são condutas baseadas em evidências e, principalmente, condutas que respeitem as vontades das pacientes.

       Cada vez mais eu preciso “perder” tempo explicando que o normal é ter parto normal, mas que nem sempre o parto sai exatamente como sonhamos. Eu - e todas as mulheres - gostaríamos de chegar na maternidade com 8 cm, dar umas tossidas, tomar um banho de chuveiro sentada na bola, sentir aquela vontade incontrolável de fazer força, fazer a força e parir. Simples assim. Pena que na vida real nem sempre é tão simples.

        Precisamos retomar o meio termo das situações. Ando meio cansada de explicar que analgesia não estraga o trabalho de parto, desde que bem indicada. Ou então que ocitocina não é um monstro de 7 cabeças, ela ajuda quando o parto não está evoluindo de forma adequada e, por vezes, evita uma cesariana desnecessária. Ou ainda, aí sim bem mais extremista, que cesariana, quando com indicação obstétrica, ou durante o trabalho de parto que não deu certo, ou complicou, serve para salvar vidas e não para abreviar meu trabalho.

        Há muito tempo eu tento me colocar numa posição menos polarizada, em relação a todos os assuntos (exceto futebol, porque vermelhos são vermelhos e azuis são azuis). Algumas mulheres sonham com um parto normal, passam a gestação toda se preparando para entrar em trabalho de parto, preparando corpo e mente para as contrações. Mesmo assim, não há como garantir a via de parto, às vezes uma cesariana é necessária. Também tem aquelas mulheres que não podem nem ouvir falar em parto, mas acabaram chegando no hospital com 8cm, topam tentar e tem um parto lindo.

      A vida já é cheia de complicações. Estar grávida já nos impõe uma série de barreiras, limitações físicas e psicológicas. Não é fácil lidar com um mundo de opiniões, palpites e “sabedorias”. Você pode escolher ter um parto normal, sem analgesia, com doula, enfermeira obstétrica, fisioterapeuta … mas precisa entender que nem todo mundo está pronta para esta experiência e precisamos respeitar as diferença. Extremos limitam, fecham portas e deixam o outro, e você, de mau humor.

      Por muito tempo eu fiquei irritada quando alguma paciente iniciava o pré natal querendo muito um parto normal e quando chegava as 36s, com o corpo mudando e o peso da barriga “incomodando”, mudava de ideia. Hoje eu não me incomodo mais. Na primeira consulta eu já deixo claro que acredito no parto normal e nos seus benefícios. Não vou mudar de ideia ao longo dos 9 meses. Então elas têm liberdade para trocar de obstetra caso desejem uma cesariana eletiva.

     Num tempo marcado pela agilidade nas informações, possibilidade de opinar publicamente sobre os mais diversos assuntos, precisamos ter mais cautela quando falamos ou pensamos sobre alguma coisa. Especialmente quando estamos tratando de um assunto tão complexo e tão “mutável” como a gestação. Muita coisa pode acontecer em nove meses. Não aceite verdades absolutas ou pré determinem um único final feliz. Como eu sempre digo, obstetrícia é uma caixinha de surpresa, precisamos ter um plano A, mas também um plano B, C ...

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Bem vindas!

Meu nome é Maria Fernanda, sou obstetra, mãe da Alice e aprendiz da maternidade. Sejam todos bem vindos ao meu blog!

 

Em 2015 eu vivi uma experiência incrível com a minha gestação. Estando do outro lado da cortina, pude entender melhor algumas dúvidas comuns entre as pacientes. Com isso, surgiu a ideia de fazer um blog. Através dele vou tentar fornecer informações que possibilitem uma gestação mais tranquila. Abordarei semanalmente assuntos baseados nas dúvidas do meu dia a dia no consultório e na minha vivência como gestante, puérpera e mãe. Recentemente eu decidi fazer postagens também com relatos de parto, para dividir as experiências vividas pelas mamães, contadas por elas.

Não esqueçam de deixar um comentário sobre o que acharam do blog, dúvidas ou sugestões para os próximos posts. Se acharem que as informações são úteis, compartilhem e sigam nossas páginas no instagram (@blogacaminho) e facebook (fb.com/blogacaminho).

 

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