Desejo Materno!


Ando pensando muito em como as pacientes encaram o parto normal e como elas se sentem quando pensam diferente daquilo que elas escutam ou leem sobre o assunto. Já falei várias vezes que vivemos uma realidade de extremos e estes, raramente são saudáveis. Independente da ponta na qual você escolha ficar.

Desejo materno é um termo muito usado para definir aquelas pacientes que não querem ou não foram orientadas sobre um parto normal e optam por cesariana, eletiva, com hora marcada, em geral com 39 ou 40 semanas. Porém, se analisarmos o conceito da palavra e não seu uso mais corriqueiro, o desejo materno deveria ser levado em conta em todas as situações que envolvem a gestação, o parto e o puerpério, quando pensamos em humanização.

A imensa maioria das minhas pacientes chegam ao consultório porque querem um parto normal. Algumas querem tudo o mais natural possível, outras pedem analgesia e tem ainda aquelas que no decorrer da gestação ficam “cansadas” e decidem que gostariam de induzir com 40 semanas. Então, minha pergunta: estas, que não esperam entrar em trabalho de parto, ou pedem analgesia, são menos “humanizadas”, são menos mães, ou menos corajosas?

Vou fazer um “relato de parto” (com autorização da paciente) para exemplificar um pouco do que estou pensando e venho tentando passar para as pacientes que fazem pré natal comigo ou então nos encontram no plantão Divina.

A Alessandra chegou no consultório bem no início do pré natal. Uma segunda gestação, planejada, uma experiência de parto não tão agradável na primeira filha, mas me procurou porque queria um parto normal, Hospitalar, diferente do que foi o primeiro, com mais cuidados e mais acolhimento.

Tudo estava indo perfeitamente bem (inclusive ela fez uma viagem de férias com 32 semanas que quase me causou um AVC de preocupação), nenhuma intercorrência ao longo dos 9 meses, a bebê crescendo bem, ela super saudável, colo começou a modificar com 37/38 semanas.

Na consulta das 40 semanas ela me disse que estava cansada e questionou se poderíamos induzir o parto, já que o colo tinha 3cm. Na hora eu pensei - “tá, mas você vai acabar desencadeando trabalho de parto espontâneo, por que acelerar as coisas?”. Então minha consciência me deu uma cutucadinha … “Maria Fernanda, ela tem 40s, colo com 3cm, ela quer induzir, por que não fazer a vontade dela?”.

Pois então … Foram 17h de indução, nem todas com contrações, óbvio. Ela desencadeou trabalho de parto na madrugada de sábado para domingo e durante a manhã pediu analgesia. Muito rápido a dilatação ficou completa, mas teve um tempo maior de expulsivo. Ela esteve sempre plena, rindo e fazendo piada, acompanhada pelo marido e concordando com todas as posições que a equipe propunha. Depois de algumas horas, várias mudanças de posição, Manuella nasceu na banqueta, no auge dos seus 4225g, gordinha, rosada e linda, às 14:45h do dia 26/04/2020.

Essa semana a Alessandra veio fazer a revisão de pós parto. Estava feliz, realizada com a experiência de parto e me disse que se sentiu acolhida e cuidada durante todas as 17h que ela passou em trabalho de parto e, por isso, o tempo e a dor não foram problema.

Então, se eu faço intervenções? Sim, às vezes. Especialmente quando eu passo os 9 meses com a paciente, conhecendo a família, suas vontades, seus medos e suas expectativas de parto. Humanizar o nascimento é respeitar os desejos da paciente, mas também entender que elas tem um limite e este também precisa ser respeitado, mesmo que o plano inicial precise ser modificado ou ajustado ao longo do caminho.

Raramente minhas pacientes desistem ao longo do processo e me pedem cesariana (glória a Deus), mas as vezes ela me pedem para induzir, mesmo que não estejam com contrações regulares, ou com 41 semanas. O que eu penso sobre isso? Simples, o importante é que, ao final de tudo, elas voltem para o consultório com a mesma carinha de felicidade que a Alessandra chegou hoje, realizadas e felizes.

O parto normal sempre será a melhor via para nascer - desde que a mãe e o bebê estejam bem. Porém, entender que não existe um modelo ideal de parto, rígido, mas sim uma construção da equipe com a paciente, é o que torna tudo mais respeitoso e com maiores chances de um desfecho favorável.

Bem vindas!

Meu nome é Maria Fernanda, sou obstetra, mãe da Alice e aprendiz da maternidade. Sejam todos bem vindos ao meu blog!

 

Em 2015 eu vivi uma experiência incrível com a minha gestação. Estando do outro lado da cortina, pude entender melhor algumas dúvidas comuns entre as pacientes. Com isso, surgiu a ideia de fazer um blog. Através dele vou tentar fornecer informações que possibilitem uma gestação mais tranquila. Abordarei semanalmente assuntos baseados nas dúvidas do meu dia a dia no consultório e na minha vivência como gestante, puérpera e mãe. Recentemente eu decidi fazer postagens também com relatos de parto, para dividir as experiências vividas pelas mamães, contadas por elas.

Não esqueçam de deixar um comentário sobre o que acharam do blog, dúvidas ou sugestões para os próximos posts. Se acharem que as informações são úteis, compartilhem e sigam nossas páginas no instagram (@blogacaminho) e facebook (fb.com/blogacaminho).

 

Obrigada pela visita!

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