Não confunda assistência com violência!


Ao longo destes quase dois anos de plantão acabamos formando um perfil de pacientes que nos procuram, nos consultórios ou direto no Hospital, porque desejam um parto normal. A maioria delas vem com plano de parto, uma imensa bagagem de informações e um preparo direcionado para que o parto aconteça, com o mínimo de intervenções possíveis. Muitas delas estão na segunda gestação e passaram por uma cesárea na primeira vez e buscam uma experiência diferente.

Certa vez fui pro Divina atender uma das minhas pacientes, com cesariana prévia, eletiva, que queria muito um parto normal, ou pelo menos esgotar todas as possibilidade de tentar. De preferência sem intervenções, ou com o mínimo possível delas. Ela tinha um plano de parto, uma playlist, muita força de vontade e um marido absurdamente parceiro e colaborativo.

Eis que Nossa Senhora do bom parto estava do lado dela. Quando chegou no Divina já estava com 7cm. Saí voando de Canoas, achando que não ia dar tempo. Doce ilusão. Quando cheguei ela estava com muita dor, no chuveiro, contrações bem regulares, com boa duração e intensidade. Porém o bebê estava nas alturas.

Após muitas horas com a mesma dilatação, muita contração e o bebê lá em cima, conversamos bastante e ela entendeu que uma analgesia ajudaria. Acabou dormindo um pouco, relaxou e a dilatação ficou completa. Maravilha, vai nascer … SQN. O bebê seguia nas alturas … fora da pelve inferior, para ser mais exata.

Foram horas trocando de posição, fazendo Spinning Babies, aceitando um “repique” da analgesia, mas o bebê não descia, de jeito nenhum. Lá pelas tantas já estávamos com contrações bem espaçadas, irregulares e acabamos iniciando com ocitoc. Pedi que a Enfermeira orientasse um exercícios chamado Walcher’s, que é bastante desconfortável, mas com analgesia e com uma paciente muito disposta a conseguir, fica muito mais fácil.

Embora ela não quisesse nenhuma intervenção, com o passar do tempo, depois de muita conversa e todas as explicações necessárias, ela entendeu que não estava evoluindo e seguiu todas as orientações da equipe. Estava exausta, mas nunca desistiu, entendeu a força, respeitou os puxos, mesmo quando eles precisaram ser orientados por conta da analgesia, e o bebê nasceu, com a cabeça bem redondinha, sem nenhum “cucuruto”, ou seja, ele entrou no canal e saiu rapidinho. Todo o tempo que ela permaneceu completa, ele estava alto, fora da pelve inferior.

Por isso, entendam, assistência não é violência. Eu sei que muitos partos acontecem sem intervenção nenhuma, porém nem sempre é assim. Também sei que muitas intervenções são desnecessárias e fazem parte de uma obstetrícia antiga, que precisa ser superada, mas não podemos dizer que intervir é violar os direitos e os desejos da paciente, como se isso fosse a regra, ou uma rotina de todos os obstetras ou de todos os serviços.

Inicialmente, vocês gestantes precisam entender que o sucesso do parto começa na escolha da Equipe que vai lhes dar assistência de pré natal e no Hospital no qual vocês pretendem que o bebê nasça. É impossível ter um parto respeitoso se escolherem um pré natalista que só faz cesariana, ou então, que sabidamente faz intervenções de rotina. Assim como é muito complicado vocês escolherem o Hospital sem avaliar se ele é ou não adequado para o parto normal.

Além disso, depois de escolhida a equipe e o lugar onde o bebê vai nascer, vocês precisam acreditar nesta escolha e confiar naqueles que estarão com vocês naquele momento tão especial. Embora existam inúmeras condutas inadequadas, se você pesquisar bastante consegue adequar seu desejo de parto a equipe que vai lhe atender. Não estamos ali para atrapalhar ou interferir nas suas escolhas. Estamos ali para promover um nascimento respeitoso, fisiológico, mas acima de tudo o mais seguro possível, para mãe e bebê.

Portanto, a responsabilidade de ter um parto adequado começa na escolha de vocês e, lógico, ela pode ser feita ao longo do pré natal, ou mesmo na hora do nascimento. Muitas pacientes optam pelo plantão obstétrico e tudo bem. Recebemos pacientes todos os dias lá no Divina que escolheram ganhar com o plantão por considerarem que o atendimento será mais de acordo com o que elas desejam.

Já falei mil vezes sobre isso, mas sempre é bom repetir. O plano de parto é um plano, deve ser discutido e rediscutido, mas algumas condutas precisam ser deixadas em aberto, senão a frustração pode ser bem grande. Nem sempre o parto flui conforme o planejado e isso não quer dizer que ele não pode ou não vai dar certo. Algumas vezes, a natureza precisa de uma ajudinha para que o desfecho seja aquele planejado lá no início.

Bem vindas!

Meu nome é Maria Fernanda, sou obstetra, mãe da Alice e aprendiz da maternidade. Sejam todos bem vindos ao meu blog!

 

Em 2015 eu vivi uma experiência incrível com a minha gestação. Estando do outro lado da cortina, pude entender melhor algumas dúvidas comuns entre as pacientes. Com isso, surgiu a ideia de fazer um blog. Através dele vou tentar fornecer informações que possibilitem uma gestação mais tranquila. Abordarei semanalmente assuntos baseados nas dúvidas do meu dia a dia no consultório e na minha vivência como gestante, puérpera e mãe. Recentemente eu decidi fazer postagens também com relatos de parto, para dividir as experiências vividas pelas mamães, contadas por elas.

Não esqueçam de deixar um comentário sobre o que acharam do blog, dúvidas ou sugestões para os próximos posts. Se acharem que as informações são úteis, compartilhem e sigam nossas páginas no instagram (@blogacaminho) e facebook (fb.com/blogacaminho).

 

Obrigada pela visita!

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